Entrevista


O futuro do Nagios - Ethan Galstad

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Publicado em 19/05/2011 às 14:49

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Por Kemel Zaidan, editor da Linux Magazine


Ethan Galstad veio ao Brasil durante a Nagios Conference Latin America, que aconteceu em São Paulo de 13 a 15 de abril de 2011, em São Paulo. Em sua primeira visita ao país e à América Latina, Ethan concedeu uma entrevista exclusiva à Linux Magazine e nos contou um pouco de sua trajetória e de seu projeto, talvez um dos mais bem sucedidos softwares de código aberto para utilização em redes. O resultado dessa conversa você pode conferir nas próximas páginas da Linux Magazine.




Ethan Galstad


LM » Fale um pouco de você para as pessoas que não te conhecem no Brasil.


EG » Bom, eu vivo em Minnesota, que fica ao norte, perto da fronteira com o Canadá, na parte central dos EUA. Temos um bocado de neve por lá e comecei como um assistente de administração de redes.


LM » Você não era um desenvolvedor naquele momento?


EG » Na verdade, fui para a Universidade de Minnesota estudar Ciências da Computação e gostava disso, mas também gostava de hardware e de redes. Meu primeiro trabalho foi como assistente de administração de redes e eu gostava de desenvolver software para redes. É por isso que acredito que uma solução de monitoramento como o Nagios é um passo acertado, por causa da combinação de sistemas, redes e desenvolvimento. É o que eu gosto de fazer.


LM » Por que você começou a desenvolver o Nagios? Quando a ideia veio à sua cabeça?


EG » Veio pela primeira vez em 1996, no meu primeiro emprego em administração de redes. No lugar em que trabalhava, costumava fazer os encontros do pessoal de TI em um bar próximo e nós, bebíamos… muito. Durante uma dessas reuniões, um servidor no trabalho parou de funcionar, ninguém sabia onde estávamos e nos metemos em um monte de problemas. Por causa disso, nos disseram que não poderíamos mais fazer nossas reuniões no bar. Então, eu pensei: “Bom, preciso de uma solução para monitorar esses sistemas, para que eu saiba o quanto antes, se eles estão ou não funcionando”. Foi assim que a ideia surgiu pela primeira vez. Escrevi um programa bem básico em 1996, mas foi só em 1999, quando pensava em abrir uma empresa, que decidi oferecer serviços de monitoramento.


LM » Você abriu uma empresa?


EG » Eu ia abrir uma empresa e queria oferecer com ela serviços de monitoramento, pois os softwares que existiam na época eram ou muito caros, ou não faziam o que eu queria que fizessem. Pensei: “Pego a ideia que tive antes e tento transformá-la em um aplicativo”. Não fiz nada para começar a minha empresa, mas escrevi a primeira versão do Nagios. Honestamente, nunca imaginei que mais do que 10 ou 12 pessoas usariam o software. Nunca imaginei que haveria algum interesse, mas o projeto começou a decolar e a chamar a atenção. Foi assim que tudo começou.


LM » Como é o desenvolvimento do Nagios hoje? É patrocinado por alguma empresa ou você tem sua própria companhia?


EG » Nós temos nossa própria companhia. Começamos uma empresa que oferece serviços baseados no Nagios. Oferecemos treinamento, consultoria e suporte técnico. Também temos uma versão comercial do Nagios. Porém, o projeto Nagios em si não é patrocinado por nenhuma empresa, nem mesmo pela nossa. Acho que podemos dizer que, de certa forma, patrocinamos, por mantermos a página web do projeto e fazermos algumas propagandas do software. As pessoas que contribuem para o Nagios estão espalhadas pelo mundo e trabalham em outras empresas, alguns dos principais contribuidores para o núcleo do Nagios trabalham para empresas que competem com a nossa e também para outras empresas que possuem soluções comerciais baseadas no Nagios. Mesmo assim, temos muitos contribuidores para o projeto. Eu não poderia dizer que algum deles em particular é um patrocinador em especial.


LM » Por que você abriu o código-fonte do Nagios?


EG » Eu tinha algumas preocupações e pensei que abrir o código iria incrementar o Nagios, torná-lo mais simples de usar e melhor, se eu tivesse algum tipo de resposta das pessoas. Também pensei nisso como um modo de dar um retorno ao mundo do software livre, já que eu uso programas abertos como Linux e Apache nos meus projetos, de graça. Então quero que o Nagios seja minha contribuição para esse universo.


LM » Qual é a diferença entre a versão aberta e a comercial do Nagios?


EG » A versão comercial combina o Nagios Core, a versão em código aberto, com mais algumas coisas que as pessoas querem --- como análises de desempenho e outras ferramentas de descoberta de problemas de rede. Então, nela, combinamos essas funções e criamos nossa própria interface para colocar tudo de uma maneira compreensível. Portanto, o produto comercial tem mais recursos que a versão em código aberto; ao menos inicialmente, como uma solução imediata. No entanto, a maior parte dos usuários do Nagios usa a versão gratuita, pois ela é muito adaptável e eles têm bons conhecimentos técnicos. Desse modo, eles mesmo instalam extensões como ferramentas de teste de desempenho e autodescoberta, funções estas já existentes na versão comercial.


LM » Essa versão comercial é vendida no Brasil?


EG » Sim, nós temos alguns clientes no Brasil. Não consigo lembrar dos nomes agora. Nós temos clientes em mais de 100 países. Muitas dessas pessoas são aquelas que conhecem o Nagios e que já usam o Nagios Core por bastante tempo e alguns deles querem algo que seja mais fácil de usar para as outras pessoas na empresa ou até mesmo para a sua gerência, que pode querer relatórios melhores.


LM » Como é o desenvolvimento hoje? Você tem algum desenvolvedor brasileiro contribuindo com o Nagios?


EG » Para o desenvolvimento do Nagios Core, nenhum. Mas existem pessoas no Brasil e provavelmente em todos os mais de 100 países em que há usuários de Nagios, que contribuem para ele de alguma forma. Por exemplo, adicionando certos serviços, com extensões em código aberto para o Nagios. Márcio Pessoa, que dá treinamentos e consultoria sobre o software, por exemplo, está escrevendo um livro sobre o programa e também um documento de referência rápida para o Nagios. Assim, existem pessoas que contribuem de diferentes maneiras, espalhadas por todo o mundo: Europa, América do Sul e do Norte, Ásia.


LM » Quantos contribuidores são ativos?


EG » Eu poderia dizer que, em geral, as pessoas são ativas na comunidade; algo como 50 ou 60 pessoas são muito ativas. Elas não trabalham todas no Nagios Core, mas também no Núcleo, no projeto de extensões para o Nagios e na V-Shell, a nova interface. E existem outros membros ativos, outros 50 ou 60 que testam e avaliam as extensões e fazem a documentação.


LM » E qual é a vantagem que o Nagios possui em face aos outros produtos concorrentes?


EG » Acho que uma das grandes razões de suas vantagens é que ele existe há muito tempo e está sempre melhorando. As pessoas sabem que ele existe e que é confiável. O Nagios tem centenas de extensões e complementos livres e gratuitos; e todos eles são bons. Isso faz dele um aplicativo atraente para quem queira usá-lo. Também existe uma rede de suporte internacional. Por exemplo, no Brasil, existem centenas ou milhares de pessoas usando o programa, de modo que, se você tiver questões sobre ele, pode encontrar alguém para te prestar assistência em português. Quando temos que explicar sobre as vantagens do Nagios, falamos sobre isso: você pode conseguir ajuda na sua língua, as extensões são gratuitas e você pode usar o que quiser do programa. Outros produtos possuem diferentes capacidades, mas os produtos em código aberto e até mesmo alguns produtos comerciais, ainda não chegaram lá. Já o Nagios sim. Existem literalmente centenas de programas para se escolher e o Nagios é provavelmente a solução em código aberto mais popular. Acredito que seja por causa do grande comprometimento, já que a comunidade é extremamente ativa.


LM » Você falou sobre a comunidade. E quanto a sua vinda para o Brasil? Você recebeu alguma opinião sobre o produto? Alguma opinião te surpreendeu?


EG » Acho que não estou surpreso, mas sim feliz por ver as pessoas usando Nagios e conhecê-las nas conferência que participei. Elas expressaram estar muito felizes com o programa. O que me deixa contente é saber que ele está funcionando bem para elas. Também fico contente por causa das empresas brasileiras que estão usando o Nagios: a Petrobrás, o exército brasileiro, a Claro, a TIM, entre tantas outras.


LM » O exército brasileiro e o governo federal, fazem uso extensivo de software livre.


EG » Penso que a Europa tem uma situação similar. Como a França, que há alguns anos aprovou uma lei obrigando o governo a procurar por soluções em código aberto.


LM » Há um projeto de lei no Congresso com uma proposta como essa no Brasil, mas acredito que as grandes empresas de software proprietário não vão gostar muito disso.


EG » Sim, mas é realmente o que acontece: a ideia é boa, mas não há como juntar recursos. Já empresas como a Microsoft, HP e IBM possuem muitos recursos, já que ganham muito dinheiro, têm muitos empregados, muitos advogados e podem lançar no mercado muita propaganda sobre os seus produtos. Enquanto empresas muito menores, empresas com projetos de código aberto, não têm todos esses recursos disponíveis. Porém, a situação é interessante. Penso que a diferença do código aberto é que ele entrou na sua empresa porque alguém simplesmente instalou o programa e ele funcionou. Em seguida, esse alguém contou ao amigo ou colega de trabalho sobre o produto: “estou usando o Nagios” ou “estou usando o MRTG”


Nós descobrimos que dentro da IBM, em algumas fábricas, eles usam Nagios. Claro que o pessoal do marketing da IBM ou da HP não fala isso, mas eles usam Nagios.


LM » E eles têm soluções próprias de monitoramento, certo?


EG » Eles têm, sim. Têm suas próprias soluções de monitoramento e algumas delas são muito, muito caras. A HP e a IBM são duas das companhias conhecidas como “as quatro grandes”. Elas possuem soluções muito caras. Por isso, muitas pessoas migraram dessas soluções para o Nagios. Algumas vezes elas não podem fazê-lo, pois o uso delas é político. O CEO ou o CIO da organização conhece alguém dentro dessas empresas; então, eles compram essas soluções caras e continuam renovando suas licenças. No entanto, o pessoal de TI não gosta delas, seja porque não funcionam, seja porque são muito caras. Deste modo, continua-se pagando por elas, mas sem utilizá-las. Assim, eles simplesmente instalam o Nagios, usam; e não falam a ninguém sobre isso.


LM » E quanto ao futuro do Nagios? O que você imagina para ele?


EG » Considerando o número de projetos de código aberto que desenvolvemos em nossa empresa, tornaremos o Nagios mais fácil de usar. Conforme o projeto cresce e as pessoas entram cada vez mais em contato com o programa, temos que ter em mente que muitas delas não são usuários avançados como os usuários de Linux. Muitos serão usuários de Windows e também vão querer usar o Nagios. Para tal, algumas das nossas solução vão permitir que estas pessoas usem o programa. De acordo com o crescimento da nossa companhia, poderemos alocar mais recursos em projetos de código aberto e também em outras coisas, como ajudar a comunidade ou compartilhar as contribuições, através de um site de intercâmbio para o Nagios, o Nagios Exchange. É uma edição comunitária do Nagios, com a qual promovemos as contribuições da comunidade e mais tarde nos promove em retorno. Estamos prevendo mais e mais desenvolvimento em torno do Nagios:  uma nova interface e uma nova ferramenta de configuração, para torná-lo mais simples de usar.


Mais e mais pessoas usam o Nagios o tempo todo. Não sei se você sabe, mas fizeram mais de 400 novas contribuições para o software no site Nagios Exchange; isso só no último ano. Sem contar as pessoas que desenvolvem para o programa e não conhecem o Nagios Exchange. Toda semana surge alguma coisa nova, um novo complemento ou projeto.


LM » Você gostaria de falar alguma coisa para a comunidade de código aberto brasileira?


EG » Estou animado de ver que no Brasil o Nagios e outras soluções de código aberto são usadas de forma tão abrangente. É emocionante falar disso, porque, quando comecei a criar esse software em casa, não havia muitas pessoas que falavam sobre ou usavam programas em código aberto. Nunca imaginei que tantos usariam meu programa. Nunca tinha vindo para a América do Sul ou América Latina e está sendo ótimo pelas excelentes chances que tive para conhecer as pessoas.


Particularmente, múltiplas línguas é uma coisa que não temos no Nagios. Uma das coisas que gostaria de encontrar são pessoas que traduzam a documentação para a língua portuguesa e, talvez, alguém também que queira contribuir e traduzir a interface PHP do Nagios para o português. Isso ajudaria as pessoas. Através da nossa empresa, é difícil encontrar alguém que tenha o conhecimento necessário do idioma para fazê-lo. É mais fácil buscar essas pessoas na comunidade.


LM » Vocês não usam a ferramenta de localização do GNU? O Gettext?


EG » Na verdade, existem duas interfaces, uma em CGI, na qual não colocamos gettext, e uma em PHP. O que estamos fazendo é transitar para essa interface PHP onde podemos colocar o gettext. Mas isso ainda não recebeu atenção. Nossos desenvolvedores já sabem dessa demanda e estamos esperando que ela seja priorizada por eles.


LM » Porque, com essa ferramenta, ficaria mais fácil traduzir. Bastaria colocar o arquivo em algum serviço de tradução como o Pootle ou o Launchpad e qualquer um da comunidade poderia fazer isso.


EG » Como em qualquer produto ou projeto com interesse comercial, primeiro você deve construí-lo e ter certeza de que ele funciona. Só então você pode parar para transferir tudo para um arquivo .po e se preparar para melhorará-lo. Mas, definitivamente, eu acredito que a documentação é o mais importante. Para um produto que não possui a interface localizada, a documentação é ainda mais crítica.


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