Entrevista


O papel das tecnologias de código aberto para a IBM

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Publicado em 22/06/2012 às 13:41

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Dan Frye


Por Kemel Zaidan, editor da Admin Magazine


Admin Magazine » Você foi um dos pioneiros do código aberto dentro da IBM?


Dan Frye » Sim, em 1998 ajudei a iniciar os departamentos de Linux Strategies e Open Source Strategies na IBM, e sou também co-fundador desses dois grupos. Um ano mais tarde, em 1999, comecei o Linux Development Team, um grupo dentro da IBM que ainda gerencio.


AM » Conte sobre sua experiência, foi difícil introduzir o Linux e a cultura de código aberto na IBM?


DF » Foi incrivelmente fácil, e naquele momento eu era ainda muito jovem para entender o quão bom foi a experiência. Começamos a falar sobre o Linux pela primeira vez em setembro de 1998, e tivemos encontros regulares nos meses seguintes para entender como o Linux funcionava. Criamos então uma estratégia para começarmos a falar com os executivos. Em janeiro do ano seguinte já tínhamos tudo aprovado. Tudo isso com apenas uma reunião, onde normalmente seriam necessários vários encontros e conversas. Mas estivemos apenas uma vez com os altos executivos da empresa e imediatamente recebemos o aval para seguir em frente.


AM » Como você conheceu o GNU/Linux?


DF » Eu trabalhava no setor de computação de alto desempenho para a indústria, operávamos com uma solução de supercomputadores da própria IBM, em um complexo na Califórnia que mais se parecia com uma oficina. Na época estávamos tentando descobrir como construir um computador capaz de processar petaflops, algo que para aqueles tempos seria algumas magnitudes mais potentes que os supercomputadores disponíveis. Estávamos divididos em grupos, e eu estava encarregado de construir um supercomputador de baixo custo. Um dos membros do nosso grupo disse que usaríamos Linux e, como não conhecia nada a respeito, foi nesse grupo de trabalho que tive meu primeiro contato com Linux e tecnologias de código aberto. Foi mais tarde, em 1998, quando entrei para a equipe de estratégia corporativa, que ficou claro que precisaríamos de uma estratégia para o Linux.


AM » E demorou muito para perceber o valor comercial do GNU/Linux?


DF » Não, percebi isso de imediato. O que aprendemos em 1998, quando começamos, foi que os clientes já estavam usando a plataforma e já pediam por soluções da IBM para ela, só não estávamos compreendendo exatamente aquilo que nos pediam. Quando começamos a entender, ficou claro que nossos clientes queriam essa solução. Não era algo que demandasse uma defesa, mas que chegou até nós a necessidade de versões do DB2 para Linux, nossos servidores Intel com Linux. Ou seja, já existia oportunidade de negócio.


AM » Qual a importância do código aberto para a IBM hoje? O quanto ele representa para o faturamento da empresa?


DF » Código aberto é um elemento central de muitas de nossas estratégias. Entre elas, obviamente a estratégia Linux. Mais recentemente temos usado código aberto com o ambiente de desenvolvimento Eclipse, para construí-lo de forma multiplataforma. Vendemos muitas soluções que usam código aberto, e muitos de nossos clientes também usam código aberto assim como nossas soluções de nuvem e produtos para o usuário final. Até mesmo nossa metodologia é de código aberto, e desenvolvemos muitas das nossas soluções - até mesmo as proprietárias - usando métodos de código aberto. Não posso revelar o quanto soluções em código aberto respondem sobre nossos ganhos, posso dizer que não representa uma parcela grande; a IBM possui diversos produtos e fontes de renda, e o que posso afirmar com certeza é que se trata de um negócio de bilhões de dólares.


AM » Você também foi responsável pela criação da Linux Foundation, certo? Como foi todo o processo de fundação da organização?


DF » Eu ajudei a fundar o Open Source Development Lab (OSDL), que foi predecessor da fundação, e depois auxiliei na fusão do OSDL e do Free Standards Group no que conhecemos hoje como a Linux Foundation, integrando ainda por um tempo o conselho de diretores da organização. Precisávamos de um lugar, como indústria, para trabalhar em conjunto. Precisávamos de um espaço em que os diferentes participantes do mercado pudessem dialogar e trabalhar em conjunto, o que não é algo simples de fazer sem um espaço neutro. Além disso, necessitávamos de um espaço para dar voz ao Linux; hoje Jim Zemlin e Amanda McPherson são vozes importantes em toda a indústria e estabelecemos uma referência. Hoje as mídias procuram a fundação pedindo declarações e comentários sobre o que está acontecendo no universo Linux. E também é uma organização muito forte, com quase 100 membros no momento e com crescimento evidente e regular.


AM » A Microsoft vem há algum tempo processando e exigindo de fabricantes de hardware valores sobre supostas patentes violadas que usam Linux em seus sistemas. Eles nunca chegaram a fazer isso com vocês também?


DF » Bom, eu não posso comentar sobre isso. Contudo, é necessário considerar que em um contexto geral a indústria como um todo está usando patentes, isso é um problema e não apenas com a Microsoft. Acredito que ainda não tenhamos encontrado o equilíbrio certo, precisamos de patentes para proteger a propriedade intelectual e permitir a inovação; a posição da IBM é a de que precisamos de patentes de alta qualidade, bem escritas e determinadas. Um dos problemas que estamos tratando há algum tempo com os escritórios de patentes ao redor do mundo é o de melhorar os processos que as patentes envolvem, para que existam menos patentes, porém de melhor qualidade. Ao contrário do que existe hoje, que são essas inúmeras patentes de redação generalista e mal definidas, que não conseguem se suportar. E tivemos sucesso com essa campanha ao redor do mundo, até mesmo junto ao escritório de patentes dos Estados Unidos, para quem ajudamos com o projeto de reforma do processo de patenteamento que foi enviado recentemente para o congresso americano. Existem muitas opiniões sobre patentes de software, e a IBM acredita que elas são válidas para a infraestrutura legal de propriedade intelectual, por isso temos essa preocupação com patentes de alta qualidade.


AM » Vocês já foram processados por conta do uso do Linux, correto? Vocês se preocupam a possibilidade disso acontecer novamente?


DF » Sim, pela SCO, apesar do caso ter terminado e não ter desacelerado nosso trabalho; tudo aquilo foi um trabalho bem difícil. Então, sim, nos preocupamos muito com a possibilidade de um novo processo judicial, mas a IBM se preocupa com muitas outras coisas também.


AM » Na sua opinião, quais são os mercados mais promissores para código aberto?


DF » Hoje toda e qualquer indústria possui soluções em código aberto, em qualquer mercado e em qualquer geografia, até mesmo alguns dos setores mais conservadores. Computação de alto desempenho hoje é algo que tem crescido muito, empresas de seguros e de operações bancárias são, talvez, as mais conservadoras. Mas ambas usam Linux agora, e estão bem confortáveis com isso. Aliás, o problema não está muito relacionado com código aberto, mas isso já aconteceu, as empresas optavam por código aberto por que ele era barato. Hoje as coisas se resumem a encontrar a solução correta, que normalmente envolve Linux ou outro programa em código aberto. Soluções como o Eclipse para o desenvolvimento de ambientes, ou o OpenStack para nuvens, todas com amplas comunidades. Quanto à virtualização, há o oVirt, uma nova comunidade de código aberto recém-formada para o gerenciamento de virtualização para o KVM. Essa máquina virtual é tão boa quanto a solução ESX da VMware, mas não possui uma boa ferramenta de gerenciamento.  O grupo foi formado pela IBM, Cisco, HP, Intel, Red Hat, e várias outras empresas, para assegurar que o KVM tenha essa facilidade e que possamos continuar a usar código aberto em soluções empresariais.


AM » Você tem alguma previsão sobre o futuro do código aberto?


DF » Acredito que o Linux continuará crescendo, claramente, apesar de todos os obstáculos. O sistema já está em todo lugar, em aparelhos e dispositivos diversos, em todos os países; a tendência de usar código aberto não desacelerará. Se não formos desacelerados pela SCO naquele momento, não seremos mais. Há passagem famosa do Stuart Cohen, o diretor executivo da OSDL à epoca, em ele que diz “a SCO foi a melhor coisa que já nos aconteceu”, e isso fico óbvio para nós. Quando a IBM defendeu ativamente o Linux nas cortes americanas tivemos muito mais consultas de nossos clientes sobre o sistema Linux e solicitações de pessoas que gostariam de instalá-lo.


AM » Qual é a principal vantagem das soluções em código aberto para as empresas?


DF » Hoje já não existem mais tantas pessoas temerosas quanto ao Linux. Antes eu precisava assegurá-las, explicando a elas porque o sistema é seguro, ou porque seu código é de alta qualidade. Apoiamos os sistemas, da mesma maneira que a HP ou outros grandes fornecedores. Ainda lidamos ocasionalmente com o medo de alguns clientes. Porém, hoje, é bem mais comum que nossas conversas com os clientes se resumam a responder se o Linux é a melhor solução para aquele cliente. E temos que entender isso, o Linux não é algo que pode ser usado em tudo, ele geralmente é mais rápido, mais barato e mais flexível. Mas não acredito que seja a melhor opção para todas as empresas e finalidades, assim como não acredito que um dia o mundo será só Linux.


AM » Você acredita que falta alguma coisa para o mercado corporativo de código aberto?


DF » Nada me vem imediatamente, o processo de desenvolvimento funciona muito bem, respondendo rapidamente às necessidades de clientes e da comunidade; tenho uma boa variedade de escolha entre as diversas distribuições (Red Hat, SUSE, Oracle etc.). Acho que atualmente falta conhecimento de soluções em código aberto e uma melhor compreensão sobre como ele funciona. Recentemente tenho visto muitas startups usando mal o código aberto. Parece-me que existe uma opinião difundida de que a empresa deve ser ou completamente em código aberto, ou completamente proprietária. Existe a ideia errônea de que o uso de soluções em código aberto implicaria na abertura de código de todo o trabalho, e então decidem manter tudo sob regime proprietário. Normalmente eu explico a essas pessoas que elas podem manter os elementos comuns de suas soluções em código aberto e fechar apenas os fatores diferenciais de seu produto. Assim, você poderia usar produtos em código aberto para elementos comuns, gastando os recursos de desenvolvimento apenas naquilo que destaca o seu negócio. Essa falta de compreensão parece acontecer com muitos, até mesmo com grandes corporações: eles não entendem que não são opções mutuamente excludentes.


AM » Qual é a preocupação da IBM com a segurança em suas soluções de código aberto?


DF » Essa costumava ser uma pergunta bem frequente dos nossos clientes, agora estamos voltando a enfrentá-la com nossas ofertas de produtos de nuvem. Mas esse já não é mais um problema. Existe uma certificação formal internacional, desenvolvida por especialistas, que é dada para sistemas seguros, que possui diversos critérios a serem observados. Há algum tempo, alguns fornecedores (que não vou nomear aqui) chegaram a afirmar para governos e empresas que o Linux jamais conseguiria atender a esses requisitos de segurança, por ser aberto. A IBM não só certificou o sistema, mas o fez em tempo recorde: devido à sua natureza em código aberto, pudemos alterá-lo rapidamente para atender os requisitos da certificação. Com a ajuda da SUSE e da Red Hat conseguimos elevar o Linux para o nível de certificação que o equipara a qualquer sabor do UNIX. E o tempo mostrou que é muito mais fácil explorar vulnerabilidades do Windows do que do Linux. Claro, devem também existir processos prontos para o caso de ocorrer uma falha de segurança, para que você possa corrigi-la e oferecer suporte para aqueles que sofreram com esse problema. Cada erro corrigido também pode ser devolvido para a comunidade. Já com a computação em nuvem, que ainda está em seus estágios iniciais de desenvolvimento, as pessoas estão apreensivas sobre a segurança efetiva dos serviços oferecidos, e de fato ainda há muito a fazer, especialmente em nuvens públicas. E não apenas no que diz respeito à segurança contra ameaças externas à nuvem, mas sim em ser capaz de oferecer nuvens completamente virtualizadas e também fornecer uma divisão absoluta entre os membros daquela nuvem, caso sejam, por exemplo, competidores ou grupos interessados nas informações confidenciais de outros. E certamente ainda há muito caminho a percorrer para criar uma nuvem pública completamente confiável. A IBM é líder nesse mercado, mas ainda tem muito a desenvolver para isso.


AM » E quanto ao mercado brasileiro? Quão grande é a adoção do Linux entre os clientes brasileiros da IBM?


DF » Sem entrar em especificidades, mas, por exemplo, hoje tivemos uma apresentação conjunta de um caso de um cliente da IBM que está usando Linux há alguns anos já. Além disso, o Brasil é atualmente um dos mercados que mais cresce em adoção do sistema operacional Linux.


AM » Quais são os planos da empresa para investimentos em código aberto nos próximos dois anos?


DF » É interessante, costumávamos nos importar mais com os anúncios de produtos, hoje tudo que sai da IBM (mainframes, POWER, storages, software etc.) usam Linux, não temos nem mais um planejamento. Uma das nossas maiores prioridades hoje, e uma das áreas em que o Linux não tem sido muito forte, é a de virtualização. Nosso trabalho está focado no KVM, uma tecnologia de virtualização embutida diretamente no kernel; temos trabalhado em conjunto com a indústria para tornar o KVM competitivo, e conseguimos isso. Agora estamos com o projeto oVirt para a criação de uma ferramenta de gerenciamento. Essa é uma área em que esperamos uma grande mudança, como o crescimento da fatia de mercado pela qual o Linux, e especialmente as soluções da IBM, responde. Essa é a principal prioridade para nós nesse momento.


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