Entrevista


Um novo olhar para o mercado de TI

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Publicado em 06/11/2012 às 10:35

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Por Rafael Peregrino da Silva, diretor da Linux Magazine


Linux Magazine » Quais são suas primeiras impressões como líder global de vendas durante este período em que está trabalhando na Red Hat, considerando seu expertise profissional?


Arun Oberoi » Meu expertise é grande na área de infraestrutura. Entrei para a Red Hat basicamente por três motivos principais: a certeza de que o sistema de valor possui uma boa oportunidade de mercado – e notei que existe de fato esse potencial na empresa – segundo, não exatamente nessa ordem, mas não menos importante para mim pessoalmente, descobrir para onde caminha o mercado, por onde tem caminhado ou onde estaria neste momento. E o terceiro ponto foi descobrir o modelo de negócios mais adequado para a empresa, o DNA tanto em termos de negócios e portfolio como o roadmap que possa liderar o mercado. Então foi um acontecimento muito bom para mim, pois conversei muito com a Red Hat, que é uma empresa que se preocupa muito com as pessoas, portanto essa é uma oportunidade na qual poderei ajudar a mudar a forma como essa indústria se projeta no mercado em sua posição de líder da próxima geração computacional. Estas são as principais razões pelas quais aceitei vir para a Red Hat, e nestes últimos meses todos estes pontos têm sido reforçados entre as equipes, clientes e parceiros, está tudo indo muito bem.


LM » A Red Hat começou como uma empresa totalmente voltada para a criação de tecnologia livre e ao longo dos anos tem se reposicionado, mudando um pouco o modelo de negócio inicialmente para o middleware e agora com uma forte inclinação para a computação em nuvem. Qual será a estratégia da empresa para fazer mais de 1 bilhão de reais?


AO » Essa é uma boa pergunta. Sim, é isso mesmo, em resumo a Red Hat começou como uma empresa de tecnologia livre e hoje em dia temos mais de 60% deste mercado; mas, para definir para onde estamos nos dirigindo neste momento, devemos nos certificar de que, com base na maturidade dos nossos usuários na consolidação e utilização do Linux, da Big Data e do middleware, consigamos mapear o nosso lugar no processo de maturação do consumidor e ao final oferecer a ele uma fundação sobre a qual possa basear-se quando estiver pronto para migrar seus negócios para a nuvem, seja para a nuvem pública, privada ou híbrida. No entando, nosso foco está no desenvolvimento de uma nuvem híbrida e em oferecer ao usuário os pontos-chave para renovar sua infraestrutura para que essa mudança possa acontecer. Vemos nessa perspectiva o nosso futuro.


LM » Mas para operar essa mudança, a empresa deve enfrentar diferentes tipos de concorrentes no mercado. A Red Hat já é o que podemos chamar de “peixe grande”, mas, se comparada com outros peixes grandes do mercado de tecnologia, todos possuem uma oferta bastante sólida em termos de computação em nuvem – estamos falando da Citrix, VMWare e por aí vai. Algumas dessas empresas foram parceiras da Red Hat no passado – e ainda são. Como você enxerga a competição nesse contexto?


AO » Estamos indo muito bem. Você pode ver isso pelos números de crescimento da nossa empresa, que estão embasados nas fortes proposições de parcerias que temos e do retorno dos nossos consumidores – estava com um deles nesta tarde, uma grande empresa da área editorial, e me disseram que adoraram o hardening (mapeamento de ameaças e execução de medidas corretivas para enfrentar tentativas de ataque) do código que fizemos, disseram que nunca dava problemas. Mas você está certo, temos concorrentes fortes no segmento de sistemas operacionais, middleware etc., mas estamos vencendo por duas razões principais: a primeira é que o mundo que estamos ajudando nossos clientes a construir, é um mundo da nuvem híbrida e temos mapeada a forma como nossos consumidores tem agido e comprado atualmente; então temos trabalhado justamente no processo majoritário de catalogação e utilização de espaço por parte do usuário, mas há outras preocupações envolvidas ao lidarmos com as necessidades dos nossos consumidores. Mas se pensarmos na nuvem com maior foco em tecnologia da informação, desde a época dos mainframes, da arquitetura cliente-servidor, da Internet e das redes sociais, tudo agora está rapidamente se tornando utilidade computacional.


A premissa fundamental da utilidade computacional – que é no que consiste o nosso trabalho na Red Hat – é tornar-se uma camada de infraestrutura interligada a uma camada de serviço. Se olharmos para a premissa do código livre, que também é onde reside a beleza da tecnologia open source, um dia todo software será livre. Esta não é uma previsão difícil: é o que vai de fato acontecer, não importa se a curto ou a longo prazo, mas é o que irá acontecer no futuro. E precisamos de empresas como a Red Hat que nutram a comunidade como evangelizadores nesse sentido. Nós somos muito fortes na comunidade, produzimos bons códigos e investimos muito dinheiro na nossa base de engenharia, suportamos e apoiamos a comunidade há anos, muito antes das outras empresas começarem a fazer isso. Mas, novamente, a premissa fundamental da computação em nuvem – que irá se tornar a nova cara da computação – são as verdadeiras tecnologias de código aberto e de serviços de interconectividade, nas quais se incluem a Red Hat e outras empresas. E é isso que nos faz vencer a batalha, pois os consumidores – incluindo o mercado brasileiro – tem abraçado verdadeiramente essa premissa.


Mas se pensarmos para onde essa utilidade computacional está indo, no fato de que, de 80% a 90% dos data centers no mundo atualmente possuem stacks proprietárias e particulares com APIs abertas, no tráfego, que no passado era realizado entre usuário e servidor e a comunicação era feita de servidor para servidor; agora há menos comunicação, no sentido de como os dados tem se movimentado, pois os servidores passaram a interagir de uma outra forma. Com o passar do tempo a comunicação máquina a máquina vem se tornando mais complexa, e essa comunicação entre máquinas também precisa fazer o caminho contrário em termos de infraestrutura e interagir umas com as outras. Se pensarmos nesses movimentos fundamentais da indústria, para tornar possível essa utilidade computacional, torná-la acessível e disponível a consumidores finais a qualquer momento e em qualquer lugar, não é possível fazer isso sem seguir as tendências que estão surgindo atualmente. No final das contas, temos que uniformizar, monetizar, customizar e produzir em massa o tempo todo, mas não podemos fazer nada disso sem padronização e tecnologias livres. E a Red Hat encontra-se à frente deste mercado por estar oferecendo uma alternativa atraente para seus consumidores em relação à concorrência, fazendo softwares que seguem essa tendência de ser mais acessível e disponível para as pessoas.


LM » Outros concorrentes da Red Hat, como a Citrix, por exemplo, também trabalham bastante com código livre e tem abraçado essa causa. Até mesmo a Oracle tem feito isso; você é uma pessoa que tem trabalhado com tecnologia livre há muito tempo e sabe como tirar proveito dela e das contribuições da comunidade, mas agora as coisas estão ficando um pouco diferentes, parece que tudo está confluindo para o open source. Como você intenciona, junto à Red Hat, continuar mantendo uma diferenciação entre o que vocês fazem daquilo que é oferecido pelos outros concorrentes do mercado?


AO » Boa pergunta. No final das contas, acho que tudo é uma questão de entregar além (de preferência) daquilo que o usuário deseja. Pretendemos assegurar que que tudo o que fizermos, além é claro do nosso compromisso com nossos clientes, esteja de fato concluído. Se fizermos isso direito, continuaremos à frente, pois teremos criado uma relação de confiança com nossos clientes. Está no nosso DNA é garantir que tudo isso aconteça: nossa equipe de suporte, de vendas, de produtos, a forma como aprimoramos e entregamos nossos códigos para o mercado… esse é o caminho final no mercado, para nós. Estas são as razões pelas quais sempre nos diferenciamos no mercado. O lugar na pilha de infraestrutura precisa ser renovado em sua totalidade. Esse lugar é, em alguns casos, um estágio inicial para nós. Compramos uma pequena empresa chamada Gluster, especializada em storage; e que é uma empresa que endereça cópia de dados: este é um mercado que está crescendo rapidamente. Todo o gerenciamento e armazenamento de dados também precisa caminhar para o mundo open source. A Red Hat está tomando a liderança nisso, não há nada como a Gluster no mercado atualmente, portanto estamos tornando tecnologias “core” como as que tem sido disponibilizadas pela Gluster acessíveis para a comunidade. Também sabemos muito bem o tamanho da encrenca: as pessoas irão abraçar essas tecnologias e aplicá-las e teremos que continuar na liderança do suporte a qualquer tipo de problema que venha a ocorrer.  Começamos com a virtualização com o KVM, mas estamos planejando utilizar a solução da Gluster de uma outra maneira, pois ela é amplamente escalonável e assim como o KVM e outras abordagens, é altamente segura. Se olharmos para as missões críticas de usuários ao redor do mundo, será, de fato, um tipo diferente de solução a que estamos propondo, embora ainda esteja em um estágio inicial e estejamos crescendo rapidamente. Desenvolvedores e usuários podem contar conosco como um time para guiar a liderança de inovação deste tipo de tecnologia, assim como parceiros em geral pois para nós é fundamental fazermos duas coisas: uma é entregar serviços com valores agregados para nossos consumidores (e temos nossos próprios servidores para ajudar parceiros e clientes) e a segunda coisa é prover escalonabilidade em múltiplos níveis para empresas locais, grandes empresas, distribuidores etc. Portanto a diferenciação neste mercado está embasada no que faremos para estes parceiros e consumidores de forma com que possamos prover uma tecnologia que mapeie as necessidades reais dos clientes.


LM » Ser um líder, como uma empresa pública, pode trazer interesses em aquisições nesse tipo de tecnologia. E a Red Hat está fazendo com que muitas pessoas fiquem “infelizes”, no outro lado dessa competição, embora vocês estejam tomando seu lugar em um mercado onde já existem outras pessoas competindo fortemente. São uma marca registrada...


AO » Não estou pensando nesse sentido, mas em entregar o que mencionei anteriormente, baseado em algo que seja altamente rentável para nossos investidores, empregados etc. Mas sim, o mercado é dinâmico e muita coisa pode acontecer ainda.


LM » Poderia nos dar uma visão geral do que a Red Hat está desenvolvendo e qual o papel da América Latina neste contexto?


AO » O crescimento na América Latina, em especial no Brasil, tem sido bem forte. Inclusive temos feito constantes reuniões com clientes e parceiros brasileiros. É um país que tem abraçado a tecnologia livre, inclusive por parte das autoridades governamentais e que tem sido um motor essencial para nossos negócios.


LM » Como você pretende aprimorar a área de vendas da empresa?


AO » Em resumo, um ponto central para nós é o direcionamento focado em parcerias. E uma parceria que não seja voltada apenas para aplicativos mas também na construção de soluções (como as que são feitas por nossas equipes de serviços). Se toda essa parceria for bem conduzida, teremos as bases para uma fábrica, a partir da qual poderemos construir nossos negócios. Essa será uma parte importante da nossa estratégia para seguirmos para o próximo nível. A segunda parte da nossa estratégia é ir além do que já fomos como uma empresa de tecnologia e de infraestrutura. Muito do que fazemos com nossos clientes diz respeito justamente sobre entender suas arquiteturas de negócios e mapear o que podemos fazer por eles. Portanto, uma boa parte do que transformaremos para seguir adiante em nossos negócios é mapear a tecnologia da forma mais aprofundada possível para os negócios. Essas são duas perspectivas com foco maior do lado de mercado. Uma outra parte fundamental de tudo isso diz respeito ao engajamento de profissionais competentes e confiantes para nossas equipes. Competência cria autoconfiança. Competência também cria humildade, pois você sabe o que não sabe. E o que os clientes vêem, no final, é comprometimento, confiança e competência.


LM » Como você vê a concorrência por parte de empresas provedoras de soluções Linux que trabalham com open source desde os primórdios, como a SUSE, a Canonical, entre outras, trabalhando em projetos similares, tentando se posicionar em campos que a Red Hat já domina?


AO » São grandes empresas e possuem boas ofertas, mas a nossa oferta global é melhor aceita, como indicam os números que temos no mercado. E se olharmos para o centro daquilo que produzimos, em termos de código, aplicativos amplamente escalonáveis e do suporte que oferecemos a clientes e parceiros, as pessoas realmente compram o nosso produto, pois não iriam se arriscar em projetos de missão crítica. O que estamos propondo é até mais do que isso: fornecer os produtos e as ferramentas necessárias para ajudar nossos clientes a se movimentarem em direção à próxima geração da computação.


LM » Qual é a sua opinião sobre a concorrência da própria comunidade? A CentOS, por exemplo, é um sistema operacional muito confiável, totalmente desenvolvido em código livre, construído sob as tecnologias mais atuais. Há quem diga que isso pode prejudicar os negócios da Red Hat, outras pessoas dizem que a comunidade pode pedir a ajuda da Red Hat quando surgirem problemas. O que você pensa a respeito?


AO » Isso na verdade acaba nos ajudando. Se o poder for construído dentro da comunidade, quanto mais forte a comunidade se tornar, tanto melhor para empresas e parceiros. A boa notícia é que o bolo é muito grande, e há uma fatia para todo mundo.


LM » E o mercado mobile? O que a Red Hat pensa em fazer nesse sentido? Falamos bastante sobre cloud, mas não falamos até agora na Red Hat quando o assunto é mobilidade.


AO » Esta convergência de largura de banda tem criado mais e mais serviços que as pessoas possam utilizar a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas os serviços que vêm sendo criados precisam retornar para o backend da infraestrutura, onde estão seus dados, aplicativos, comunicações entre serviços etc., então vemos um grande crescimento neste campo também. Ainda há muito mais coisas para serem feitas, portanto, quanto mais isto estiver conectado aos nossos serviços, toda vez que houver uma transação ou um requisição para esse serviço, também sobrecarregamos mais nossa infraestrutura, e com isso também podemos desenvolver mais soluções para os nossos serviços. E não vejo nada disso desconectado de questões relacionadas à mobilidade, muito pelo contrário. Teremos tudo isso na nuvem de qualquer maneira.


LM » Qual seria a sua mensagem para nossos leitores?


AO » Ficamos muito contentes que haja um engajamento da comunidade e temos feito nosso melhor para sermos um catalisador para torná-la mais forte, pois sabemos que quanto mais forte ela se torna, mais forte também nós nos tornamos. É uma relação bastante simbiótica.


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