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Blog do Maddog


Reflexões de um Cachorro Louco

O ano do centenário de um grande homem: Alan Turing

Publicado em 16/10/2012 às 15:00


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Eu tinha quatro anos quando Alan Turing morreu. Com esta idade, sequer imaginava que um dia estaria envolvido com computadores; aliás, nem sabia o que era um computador. Foi só quando entrei na universidade em 1968 e comecei a estudar o que então era chamado de “magia negra para computador” que ouvi sobre o homem que concebeu a Teoria da Máquina de Turing e, mais tarde, o teste clássico de inteligência artificial, o “Teste de Turing”.

Quando trabalhava na Digital Equipment Corporation, tínhamos salas de conferências batizadas com nomes de grandes cientistas da computação e, claro, a “Sala Turing” era uma delas. Este ano vou completar 62. Eu vivi 20 anos mais que Alan Turing e, apesar de muitas coisas sobre as quais sinto orgulho de ter feito, sei que não chego próximo de minutos do que ele fez em vida, ou do que ele poderia ter realizado se tivesse vivido mais tempo.

Um monte de gente gosta de falar sobre propriedade intelectual. Houvesse de fato a propriedade intelectual, eu poderia então possuir um pátio em meu nome e Alan Turing possuiria todas as ilhas do Havaí. Se Alan Turing tivesse patenteado sua obra, hoje seria tão rico quanto Midas.

Às vezes é difícil olhar para trás e dizer: “puxa, isso é óbvio”, ou “qual é o grande negócio”, mas quando olhamos para o futuro, a descoberta de algo verdadeiramente novo é muitas vezes difícil. Turing foi antes de tudo um matemático (nunca meu ponto forte), um lógico (algo mais a ver comigo), um criptoanalista e cientista da computação. Mesmo em seus primeiros anos de experiência, ele saberia resolver problemas muito complexos sem ter sido exposto à matemática de ordem superior que tornaria os problemas muito mais fáceis de resolver.

Em 1931, quando ainda era estudante do primeiro ano no King's College, em Londres, Alan Turing reformulou os resultados de Kurt Gödel sobre limite de comprovação e criou o conceito das máquinas de Turing, que resultou na elaboração de uma definição matemática para um computador e um programa. Isto permitiu-lhe provar se seria possível construir um computador cujo algoritmo geral seria capaz de chegar ao fim de um determinado programa ou continuaria a executá-lo indefinidamente. Outro dado que o limite de comprovação de Turing mostrou foi que qualquer “Máquina Universal de Turing” seria capaz de resolver qualquer problema que outra “Máquina Universal” pudesse resolver, dado tempo e memória suficiente para tal..... uma prova que usei e citei muitas vezes aos meus alunos, mas, apenas para compor uma reflexão....vamos apenas dizer que o trabalho foi bastante pesado para um estudante universitário de primeiro ano.

Em 1946, Turing passou a escrever um papel destinado a projetar o primeiro programa armazenado para computador. Antes disso, os computadores continham programas em fitas perfuradas, ou leitores de cartões, ou ainda controlados por fios e plug-boards (algo como “placas inserível”, na tradução livre) - eu programei um computador que usava um plug-board. Prefiro nem pensar a respeito. Mais uma vez, o conceito de que o 0 e o 1 inseridos em uma máquina se tornariam “dados” (já que foram armazenados) e, a uma fração de segundo depois, se transformariam em um “programa” que seria executado pelo computador é “simples” para mim e para você, mas escapou de muitas pessoas por um longo tempo. Embora o próprio Turing nunca tenha realmente construído o computador, devido a atrasos, um modelo foi construído a partir de seu projeto e funcionou por muitos anos.

Anos mais tarde, ele formulou o “Teste de Turing” para a inteligência artificial, que basicamente afirmava que quando não fosse possível afirmar a partir da resposta de um programa se nos comunicávamos com um computador ou com um ser humano, então o computador era artificialmente inteligente. Embora tenham sido criadas muitas simulações de “conversas inteligentes”, eventualmente as “conversas” se quebravam e as pessoas percebiam então que, na verdade, se comunicavam com uma máquina.

Tão grande como estas (e outras) contribuições para a ciência da computação, contudo, o maior legado de Turing para o mundo foi seu trabalho em Bletchley Park, de quebrar o Enigma Code que o exército alemão então utilizava na Segunda Guerra Mundial. Sem a ajuda de Turing, a Segunda Guerra Mundial poderia ter tido um final completamente diferente.

Quando estava na universidade o trabalho que Alan Turing havia feito em Bletchley Park ainda estava sendo classificado, já que não havia uma única pessoa - entre as mais de 12 mil que trabalharam por lá - que pudesse falar sobre a descriptografia das transmissões codificadas dos alemães até o início da década de 1970. Elas também não falavam sobre os mecanismos computacionais criados por Turing, incluindo o Colossus, a primeira máquina eletrônica programável do mundo. Deve ter sido muito doloroso para as pessoas ver destruídas as máquinas nas quais haviam trabalhado duro por tanto tempo, logo após a guerra, pelas ordens de Winston Churchill.

Acredito que também deva ter sido muito doloroso para Turing não ser capaz de usar esta obra em defesa de acusações potenciais de espionagem, e ter seu certificado de segurança apreendido enquanto continuava seus estudos sobre criptografia. O que aconteceu com a vida de Turing em 1952 que o perturbou tanto? Alan Turing foi preso por ter tido uma relação sexual com outro homem, algo à época ilegal no Reino Unido. Seu certificado de segurança foi removido, e ele foi submetido a um tratamento com hormônios para “controlar” sua homossexualidade.

Alan morreu em 1954, aos 42 anos de idade. Alguns dizem que sua morte foi um acidente causado por manuseio negligente de produtos químicos; outros, que o cianeto foi introduzido em uma maçã que estava comendo, aparentemente um suicídio decorrente de uma depressão.

Ao longo dos anos, as leis sobre a homossexualidade têm sido revogadas no Reino Unido, como acontece em outros países civilizados, e Turing recebeu diversas homenagens postumamente. Devido a uma petição circulada em 2009, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, pediu desculpas públicas pela forma terrível como Alan Turing foi tratado pelo governo inglês.

Este ano, no 100º aniversário de seu nascimento, haverá uma celebração mundial de suas realizações e até mesmo um selo postal real (“Royal Mail”) foi criado em sua homenagem, e lançado em dia 23 de fevereiro de 2012. Houve também uma petição para um perdão formal oferecido a Alan Turing; por enquanto a Grã-Bretanha apenas pediu desculpas a ele pela forma como foi tratado, portanto sua condenação sob os termos da lei ainda permanece. Estimulei pessoas no mundo inteiro a assinar a petição, mesmo quem não fosse da Inglaterra. E como viajo para vários eventos em todos os continentes, este ano lembrarei as pessoas sobre o grande homem que ele foi e o legado que deixou para a posteridade.

Carpe Diem!

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