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Reflexões de um Cachorro Louco

Heróis

Publicado em 03/03/2010 às 10:41

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Por Jon ‘maddog’ Hall

Tenho alguns heróis pessoais que me inspiram: Abraham Lincoln, Samuel Clemens, Conra-almirante Grace Murray Hopper, Albert Einstein e Alan Turing. Recentemente, conheci outro, e gostaria de compartilhar sua história com vocês, já que essa pessoa teve um importante impacto sobre os computadores e o Software Livre.

Era 1937 e a Europa estava em conflito. Muitos judeus fugiam do regime nazista, vários vindo para os Estados Unidos para escapar da opressão. Muitos desses imigrantes eram muito instruídos. Minha “heroína” havia recebido uma boa educação na Áustria, mas também nutria um amor por matemática e ciência que ia além de sua educação formal. A mãe e o pai da minha heroína eram uma pianista e um banqueiro, respectivamente, e minha heroína assimilou uma grande diversidade de conhecimentos. Minha heroína foi para o teatro e, depois, para o cinema.

Vendo os nazistas avançando cada vez mais, minha heroína se mudou da Áustria para Paris, depois para Londres, usando seus talentos musicais e dramáticos para ganhar a vida. Em 1938, mudou-se para os Estados Unidos e começou a trabalhar em Hollywood.

Em 1939, os nazistas usavam U-boats para controlar o mar. As marinhas dos aliados tentavam usar torpedos contra os U-boats, mas os torpedos da época eram lentos e deixavam uma trilha de bolhas que podia facilmente ser vista, então era possível fugir dos torpedos. Os engenheiros perceberam que seria possível usar sinais de rádio para manobrar o torpedo, mas também perceberam que, se o sinal de rádio fosse detectado, poderia ser interrompido ou, pior ainda, suplantado de forma a direcionar o torpedo de volta para a embarcação dos aliados que o havia atirado!

Minha heroína pensou muito nisso e imaginou que o sinal do torpedo poderia ser enviado em várias frequências. Se houvesse alguma forma de coordenar tanto o transmissor quanto o receptor para que usassem a mesma frequência ao mesmo tempo, mas continuassem alterando-a num padrão secreto e complexo, o sinal de rádio seria muito mais difícil de detectar e interceptar.

Surge George Antheil, filho de imigrantes alemães, que havia criado música usando instrumentos musicais automáticos, como um grupo de pianos automáticos tocando simultaneamente. O sr. Antheil havia aprendido a fazer esses instrumentos individuais trabalharem em conjunto. Após encontrá-lo numa festa em Hollywood, minha heroína discutiu a idéia das “mudanças de frequências”.

Alguns de vocês sabem que eu coleciono instrumentos musicais automáticos, particularmente aqueles com um rolo de papel para controlá-los. Sempre achei fascinante que as pessoas no século XIX conseguissem criar autômatos usando apenas motores de vácuo, rolos de papel e ligações. Na vredade, alguns dos primeiros desenhos de “barramento” e “roteador” vieram de mecanismos de órgãos, usando o fluxo de ar canalizado para várias partes do órgão de forma mecânica. “Amplificadores” foram feitos usando pequenas válvulas e pequenos volumes de ar (ou vácuo) para controlar grandes volumes de ar (ou vácuo).

O sr. Antheil se sentou com minha heroína e, em poucas noites, descobriram como espalhar um sinal de rádio por 88 frequências diferentes usando um rolo de piano (que normalmente tem 88 buracos para as 88 teclas do piano) para controlar qual frequência seria usada em cada momento.

Eles anotaram essa ideia de forma completa, com imagens e diagramas, e a enviaram para o escritório de patentes dos EUA como um “sistema de comunicação secreta”, e deram os direitos da patente ao governo americano em junho de 1941, aproximadamente seis meses antes de Pearl Harbor.

Infelizmente, as tecnologias da época não eram suficientes para a tarefa. Usar um rolo de papel para pianos num torpedo, junto com os mecanismos associados que seriam necessários para fazê-lo funcionar, não era factível, mas ideia parecia boa.

Disseram à minha heroína que, em vez de se juntar ao “Conselho Nacional de Inventores”, como estes desejavam, ela deveria usar sua fama do cinema para vender bônus de guerra. Minha heroína aceitou esse conselho e conseguiu gerar milhões de dólares em vendas de bônus de guerra para ajudar a financiar os trabalhos para a 2ª Guerra Mundial.

Passaram-se os anos e a patente perdeu seus direitos após 17 anos. Os dois inventores jamais ganharam royalties com ela, e sua esperança de que ela fosse usada para vencer os nazistas jamais se realizara.

Vinte anos depois, as coisas haviam mudado. A comunicação melhorara, a eletrônica (em vez de rolos mecânicos de piano) podia ser usada para a sincronia, e a “comunicação secreta” agora poderia ser usada com sinais de rádio para controlar torpedos e mísseis.

O mecanismo descrito na patente começou a ser usado em comunicações militares.

Em 1981, o governo começou a liberar informações sobre esse sistema, e em 1985 o sistema começou a ser usado em vários sistemas de rádio comerciais, pois os engenheiros descobriram que, ao usar essa técnica, conseguiriam não apenas transmitir mais sinais através da mesma largura de banda, como também poderiam reduzir muito a necessidade de energia.

Esse método, não mais “secreto”, foi chamado de espalhamento espectral (“spread spectrum”, em inglês), e constitui a base para o Wi-Fi, o Bluetooth e as tecnologias celulares, para citar apenas algumas.

Em 1997, a EFF (Electronic Frontier Foundation) deu a George Antheil (falecido há muito tempo) e minha heroína (que na época estava aposentada na Flórida) um “prêmio por pioneirismo”, 66 anos após terem enviado sua patente.

Se você observar a patente, talvez ainda não reconheça o nome da minha heroína, Hedy Kiesler Markey, nem a conheça por seu nome de nascimento, Hedwig Eva Maria Kiesler, mas muitos provavelmente ao menos já oubiram falar de seu nome artístico, Hedy Lamarr, certa vez considerada “a mulher mais bonita do mundo”.

Obrigado, srta. Lamarr, por tudo que você fez.

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