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Blog do Maddog


Reflexões de um Cachorro Louco

O conto das mensagens

Publicado em 04/05/2012 às 13:03


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X windows:

O gargalo mais intenso.
Falhou além do que se acreditava.
A única coisa que você tem a temer.
Em algum lugar entre o caos e a insanidade.
No piloto automático para o esquecimento.
A piada que mata.
A desgraça da qual você se orgulha.
Um erro realizado até a perfeição.
Pertence mais ao conjunto de problemas do que ao conjunto de soluções.
O erro é X Windows.
Ignorância é nosso recursos mais importante.
Não-soluções complexas para não-problemas
Construído para se destruir
Anulando séculos de progresso
Caindo em níveis mais profundos de ineficiência
A última coisa que você precisa
O sub padrão do produto dominante
Elevando danos cerebrais a uma forma de arte
X Windows.

Alguns de vocês que já me conhecem talvez estejam surpresos ao ler tanto veneno contra o excelente sistema de janelas X Window no meu blog. Confiem em mim, eu não escrevi as palavras listadas acima. Trata-se de uma das mensagens do venerável programa fortune(1).

Faz tempo que conheço o fortune(1). Ele costumava ser o programa favorito de alguns pesquisadores nos laboratórios Bell, no qual eu trabalhei entre 1980 e 1983.

Eu também gostava do fortune(1), especialmente porque ele tinha, dentre suas mensagens, minha receita favorita, que ensinava a fazer uma “torta de maçã simulada” com biscoitos de água e sal Ritz. Claro que a receita estava nas caixas dos biscoitos desde “o começo dos tempos”, mas era divertido ver que a receita tinha chegado ao meu sistema operacional favorito, o Unix.

No entanto, o fortune(1) também foi causa de frustração para os produtos da Digital Unix!

Nós iríamos lançar a segunda edição do Ultrix quando recebemos uma ligação de Ken Olsen, então CEO da Digital Equipment Corporation. O presidente de uma empresa muito grande do estado norte-americano de Texas tinha ligado para ele e reclamado que a empresa estava implementando um sistema operacional “anti-americano”.

Claro que os engenheiros e os gerentes de produto do Ultrix estavam chateados. E ficaram ainda mais chateados quando descobrimos que o fortune(1) era a fonte dos problemas. Parece que o administrador que configurou o computador do presidente introduziu um terminal em sua área de trabalho que executava o fortune(1) todas as vezes que o presidente fazia login.

Agora aqueles que têm diversos fios brancos na barbas (ou nos cabelos, no caso das mulheres) devem lembrar que o fortune(1) tinha dois bancos de dados quando foi lançado originalmente: o regular e o obsceno. O regular tinha piadas convencionais, sortes do dia e, obviamente, a receita da torta de maçã. O obsceno, por outro lado, tinha coisas que seus pais não aprovariam. Talvez até rissem das frases obscenas, mas não aprovariam.

De qualquer forma, os engenheiros e gerentes de produto concordaram que o banco de dados obsceno deveria ser removido, então fizeram planos para removê-lo da versão 1.0 do Ultrix. E era essa a versão que iria para a empresa de onde partiu a reclamação. Em um primeiro momento, pensou-se que um erro havia sido cometido nessa etapa e que o banco de dados obsceno havia ficado, mas ele não estava lá.

Em uma nova investigação, descobrimos que o conceito de humor do banco de dados (conhecido por cada comediante stand-up no mundo) é de que piadas devem, necessariamente, fazer comentários jocosos sobre outras pessoas. E acontece que alguns dos estudantes que elaboraram mensagens para o fortune eram estudantes universitários “liberais” que elaboraram conteúdo sobre um certo presidente dos Estados Unidos cujo nome rima com “Nixon”. E o presidente da empresa quer reclamava do suposto “anti-americanismo” era justamente um republicano.

Concordamos que algumas das mensagens no banco de dados eram muito detratoras do antigo presidente dos Estados Unidos, então removemos o banco de dados.

Começamos, então, a refletir sobre as outras mensagens que não se referiam ao presidente. Elas eram ofensivas a judeus, italianos, russos, homossexuais, professores, católicos e assim por diante. Fomos removendo as mensagens uma a uma até que só sobrou uma: a da torta de maçã.

E até tentei implorar para mantermos ao menos a receita, mas a assessoria jurídica da Digital disse que alguém poderia tentar fazer a receita, não cozinhar o suficiente, engasgar com um biscoito mal cozido e morrer. O resultado seria um processo em cima da empresa por conta da receita. O resultado é que foi tudo removido. O fortune(1) não funcionava mais, já que não havia mais mensagens.

Isso criou um problema para a Digital, já que o programa era oficialmente suportado na versão 1.0. Para aposentá-lo, deveríamos ao menos dar uma satisfação aos clientes, dizendo que não haveria mais suporte.

Para evitar esse problema e manter o programa, veio a brilhante idéia de manter somente uma mensagem no banco de dados do fortune e dizer as pessoas para adicionarem suas próprias mensagens ou restaurar o banco de dados regular presente no lançamento anterior. Essa foi a forma com a qual resolvemos o problema.

Vários anos depois, eu tive acesso ao sistema Solaris, da Sun, e queria observar como eles resolveram o problema. Surpreendentemente eu vi que eles mantiveram os dois bancos de dados: regular e obsceno. Eu perguntei a eles qual era a orientação que eles davam para os usuários que reclamavam e eles diziam: “Se o fortune(1) o ofender, não o utilize”.

O fortune(1) também está disponível para Linux, claro, e olhando a versão mais recente eu vejo que os bancos de dados estão muito mais sofisticados do que eles estiveram no passado, com muito mais categorias de mensagens, tanto regulares quanto obscenas. Curiosamente, busquei no banco de dados de “alimentos” e achei minha receita favorita há 30 anos, que é a seguinte:

Torta de maçã simulada (não precisa de maçãs)

Massa para duas tortas crocantes de 9 polegadas
36 biscoitos redondos de água e sal
2 xícaras de água
2 xícaras de açúcar
2 colheres de chá de creme tartar
2 colheres de chá de suco de limão
Manteiga ou margarina
Canela

Desenrole uma massa e coloque em um prato de 9 polegadas. Quebre os biscoitos grosseirament sobre o prato. Junte a água, o açúcar e o creme de tartar em uma panela, deixe ferver levemente por 15 minutos. Adicione suco de limão e misture. Deixe esfriar. Coloque a calda resultante sobre os biscoitos, jogue pedaços generosos de manteiga ou margarina e polvilhe com canela. Cubra com a outra massa. Grude as extremidades. Faça cortes na massa superior para deixar o vapor sair. Cozinhe em forno quente a 220 graus Celsius de 30 a 35 minutos, até que a massa fique crocante e dourada. Sirva quente. Corte entre seis e oito fatias.

Encontrada em uma caixa de biscoitos Ritz

Experimente a receita, mas, por favor, não engasgue com as “maçãs”.

Carpe biscoitos!

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