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Reflexões de um Cachorro Louco

Projeto Cauã: Reduzir desperdício, avançar a computação

Publicado em 23/11/2009 às 12:13

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Por Jon 'maddog' Hall

Há cinco anos, comecei a voltar minhas discussões sobre Software Livre à pergunta de “Como ganhar dinheiro com Software Livre?”. Quatro anos atrás, questões em torno de usabilidade e softwares de código fechado no mundo moderno atual começaram a se infiltrar nas minhas palestras, levando à pergunta de quanto tempo é desperdiçado em escala mundial pelos softwares que não fazem o que queremos e precisamos que façam. Há três anos, comecei a abordar as questões de uso de energia e quanto o próximo bilhão de computadores vai utilizar se não tomarmos cuidado. Dois anos atrás, comecei a abordar as questões de pirataria de software e como ela afeta os usuários finais mais do que aos “provedores de software”. Ano passado, as questões de inclusão digital também entraram no cenário.

Este ano, uma recessão mundial causadora de enorme desemprego me fez parar para pensar e começar a pôr em prática um plano para resolver todas essas questões e mais algumas. Dois empresários brasileiros, Douglas Conrad da OpenS (Florianópolis, SC) e André Franciosi da Franciosi Consultoria (Porto Alegre, RS) começaram a trabalhar comigo para formular um projeto que resolveria alguns desses problemas, e depois uma série de outros empresários e técnicos se juntou à diretoria e ao princípio da diretoria técnica, para formar o “Projeto Cauã”.

Vamos examinar alguns dos problemas mencionados acima.

O desktop médio usa entre 200 e 300 watts de energia. Até já vi um sistema desktop que “orgulhosamente” usava 850 watts. Dados os (aproximadamente) 1 bilhão de desktops no mundo, se todos esses computadores fossem ligados, usariam entre 200 e 300 bilhões de watts de energia elétrica. Some a isso as telas maiores (e múltiplas) de LCD e Plasma de que todos gostamos, e a quantidade de energia é considerável.

Uma regra aproximada diz que para cada watt de eletricidade usado para computação, outro watt é necessário no resfriamento. Embora isso não seja necessariamente ruim na Antártica, onde o computador pode até atuar como um aquecedor muito caro, no equador o problema é real.

É claro que o os sistemas que gastam mais energia também têm ventoinhas. Quando mais jovem, eu tive um sistema que soava como um B-52 decolando no meu cubículo, então eu o desligava para conseguir ouvir meus pensamentos. Claro que um computador desligado é menos útil que uma âncora de barco, já que ao menos a âncora tem o papel de manter o barco no lugar. E a primeira parte a falhar num computador é a ventoinha ou o disco; mais um motivo para desligar o sistema quando ele não estiver em uso.

E se o sistema na sua mesa fosse tão pequeno e tão eficiente que não tivesse ventoinha? Se ele usasse menos de 10 watts de eletricidade? E se a sua rede fosse tão rápida e tão onipresente, com uma latência tão baixa que você conseguisse sobreviver com um disco em estado sólido ou até sem disco? Talvez você ficasse tentado a deixar seu computador ligado o tempo todo, e ele poderia ser o que você quisesse, como sua TV, seu rádio, seu telefone, sistema de segurança, roteador sem fio, sistema de automação doméstica e (óbvio) sua conexão com a Internet.

Outra questão é o tempo gasto hoje em dia na computação. Há quarenta anos, as pessoas eram treinadas em Ciência da Computação. Elas frequentavam aulas para aprender a usar o computador, e recebiam treinamento de como cuidar dele. Então, próximo a 1980, a indústria decidiu pôr o mainframe nas mesas das pessoas e o chamou de “computador pessoal”. Esperava-se que as pessoas entendessem magicamente de “backups”, vírus, filtragem de spam e (conforme os preços dos computadores caíram) com menos e menos treinamento nos aspectos menos conhecidos dos computadores.

As grandes empresas conseguiam pagar por essas pessoas mágicas chamadas de “administradores de sistemas”, mas as pequenas lidavam com pessoas autodidatas que podiam ou não ter o conhecimento necessário para o que precisavam fazer, e com menos foco em sua “tarefa principal”.

E se, nesses um bilhão de computadores, nós desperdiçássemos “somente” cinco dólares por dia? Nos salários atuais, isso significa aproximadamente quinze minutos por dia desperdiçados por conta de vírus, arquivos perdidos, spam não filtrado, ou simplesmente pela falta de softwares adequados instalados e do conhecimento de como usá-los. Como sociedade mundial, isso seria aproximadamente cinco bilhões de dólares por dia, e eu estimo que a perda seja bem mais que isso.

É claro que os defensores da computação em nuvem dizem que podem resolver esse problema, e apesar da “cloud computing” resolver várias necessidades das pessoas, há muitos cuja conectividade com a Internet em termos tanto de velocidade quanto de latência, ou da falta de aplicativos críticos, não lhes permitiria viver completamente “na nuvem” nos próximos anos.

Em várias cidades do mundo, as pessoas moram em áreas muito densas. Edifícios altos, bairros densos onde uma LAN com banda larga poderia ser fornecida para oferecer a largura e a latência necessárias para uma combinação de cliente e servidor. A Internet seria passada ao servidor, e não a empresas individuais, apartamentos e casas.

E se a computação se tornasse realmente uma “appliance” para a maioria das pessoas, com um administrador de sistemas/empreendedor bem treinado fornecendo os sistemas, softwares e conhecimentos para manter os sistemas da melhor forma para todos os seus clientes? E se essa pessoa bem treinada não estiver na Índia nem na China, mas apenas alguns andares abaixo do seu apartamento ou escritório? E se parte do trabalho dessa pessoa bem treinada for ajudar você a entender como usar seu computador de forma melhor e mais eficiente? Para economizar para você e sua família ou funcionários dez ou quinze minutos diários de frustração e falta de produtividade ao usar sua “rede de conhecimentos”? Isso valeria cinco dólares por mês?

E se essa pessoa também fosse um web designer que pudesse até escrever programas simples para você caso necessário? E se ela pudesse ajudar você a integrar seus softwares à sua vida ou à sua empresa?

E se você fosse essa pessoa? Alguém que conheça e ame o Software Livre, curta programar e gostaria do desafio de ser seu próprio chefe, seu próprio empreendedor? Parte de uma sociedade de um a dois milhões de pessoas no Brasil, e outros dois a três milhões no resto da América Latina? Talvez outro milhão no leste europeu e na Rússia, e outros quatro a cinco milhões pela Ásia? Isso pode gerar aproximadamente cinco vezes mais desenvolvedores de Software Livre do que temos hoje, e responder (de uma vez por todas) a pergunta de “como obter suporte para Software Livre?”.

Note que eu não disse nada da América do Norte e pouco da maior parte da Europa ou da África. Não temos a intenção de deixar essas regiões de fora, mas a economia e a densidade das populações nessas áreas as obrigam a “esperar para ver” boa parte do plano.

Estudos mostram que 80% da América Latina vive em ambientes urbanos. Apesar de algumas pessoas pensarem na América Latina como “floresta tropical”, “Rio Amazonas” e “Carnaval”, ela também abriga duas das maiores cidades do planeta e muitas outras cidades menores com regiões densas.

Além disso, a economia preliminar do projeto mostra que ele poderia oferecer uma experiência de computação melhor para os usuários, incluindo o pagamento do salário de administradores de sistemas/empreendedores (SA/E, na sigla em inglês), por menos dinheiro do que a maioria deles paga hoje por menos serviços. Parte do projeto é provar que isso é verdade.

Entretanto, não vamos excluir os outros locais mencionados. Talvez o projeto funcione em Manhattan, Chicago, Detroit e outras áreas de alta densidade com muito desemprego. Talvez consigamos retirar as pessoas do seguro-desemprego e transformá-las em contribuintes novamente.

Em particular, gostaríamos de “empregar os inempregáveis”. Pais e mães solteiros, deficientes físicos. Acreditamos que esses “SA/E” fariam seu trabalho melhor na tranquilidade de seus lares, contratando pessoas para ajudá-los quando não conseguissem mais dar conta das tarefas sozinhos. O projeto forneceria esse grupo de pessoas para ajudá-los.

O Projeto Cauã possui vários outros aspectos. Questões de acesso à Internet livre e gratuito, seguindo modelos usados em vários locais do globo.

Muitas pessoas dirão que “não há nada de novo aí”, e é relativamente verdade. Nada de novo precisa ser inventado. Nenhuma tecnologia precisa ser formada. Esse é um projeto de integração muito, muito grande, e portanto deve conseguir decolar bem rápido.

Todos os resultados e planos do Projeto Cauã serão “abertos”. As pessoas poderão acompanhá-lo ou participar dele conforme desejarem.

Por favor, visitem o site do Projeto Cauã e leiam sobre ele. Se você quiser participar, por favor registre-se. Também há uma lista de e-mails que pode ser assinada e cancelada de acordo com a sua vontade. Também é possível ler o histórico da lista a qualquer momento. Vamos criar outros métodos de comunicação e colaboração conforme as pessoas se juntarem ao projeto.

O primeiro passo é analisar mercados verticais, suas necessidades, e quais softwares livres já existentes podem resolver essas necessidades, assim como desenvolver a plataforma horizontal (servidores, thin clients e redes) para sustentar esses mercados verticais. Vamos precisar da ajuda da comunidade e de comprometimento para fazer essa análise.

Obrigado pela atenção,

Carpe Diem!

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