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A produção colaborativa precisa de menos tecnologia e mais gente


Por Corinto Meffe
Publicado em 10/12/2015

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A produção colaborativa tornou-se uma das grandes vedetes da Internet. Há tempos os modelos colaborativos são vivenciados, mantendo como referência primária as civilizações antigas e as nações indígenas, que praticavam a produção e a distribuição coletiva. A partir dessas experiências, a sociedade experimentou vários modelos de coletivização, que passaram pelos Kibutz, Soviets, Comunas e pelos pioneiros da cidade de Rochdale, na Inglatrerra. Observa-se que alguns princípios dessas experiências alojam-se na formação histórica do Cooperativismo.


O modelo de organização em rede sustentado pela Internet é o que consegue de forma mais acentuada promover a produção colaborativa. Nem os mais radicais coletivistas conseguiram prever o avanço desses últimos 10 anos. O economista Jeremy Rifkin mencionou recentemente que “a internet das coisas está dando origem à economia do compartilhamento, que deverá superar o capitalismo até a metade do século” [1].


Corinto MeffeComo já propagado de maneira exaustiva, ainda não se conhece todos os impactos e potencialidades da Internet, tanto para o aspecto técnico, quanto para o social e econômico. Entretanto, os resultados já são tão marcantes e robustos, que alguns acadêmicos denominam o nosso tempo como o da “Era Digital” e o economista Rifkin, como o da terceira Revolução Industrial. Independentemente do nome e dos resultados futuros, um dos expoentes dessa Nova Era encontra-se na produção colaborativa.


Em primeira análise, no que tange ao aspecto tecnológico, embora estejamos no estágio de amadurecimento da Web 2.0 – nascida em 2004 –, é possível afirmar que ainda há muito a explorar. Para termos uma ideia desse potencial represado, devemos recorrer ao passado, pois algo que dificulta o pleno uso da Web 2.0 é proveniente da quantidade de sistemas legados, que ainda precisam ser readequados ou migrados. De imediato, fica evidente a importância de acelerar a organização de um plano de ação nacional para realizar a migração dos sistemas legados para as tecnologias Web 2.0 ou superiores.


Atualmente, os aspectos técnicos enfrentam quatro gargalos que impedem a universalização tecnológica. O primeiro decorre do pouco ganho de escala das inovações, pois o preço final da tecnologia de ponta continua alto para grande maioria das organizações e pessoas. Existe um segundo, que começa a ser até curioso, pois boa parte das tecnologias inovadoras e livres permanece ociosa – uma miríade de botões, recursos, configurações, ferramentas e soluções, não são utilizadas em seu potencial. Em terceiro lugar, ainda existem muitas regiões com pouca ou nenhuma conectividade à Internet. E por último, a continuidade do quadro de exclusão digital da população, agora dividida em dois grandes grupos: aqueles que não têm acesso à tecnologia e os que têm, mas não sabem usar – o dito analfabeto funcional digital.


Para retirar obstáculos e impulsionar ainda mais a produção colaborativa, o aspecto técnico precisa atender a três questões básicas: ampliar a malha de conectividade do país, com preços mais acessíveis; manter uma pauta de ações permanente para o combate às desigualdades digitais de infraestrutura e de inovação e criar condições estruturais para que as organizações e as pessoas façam pleno uso das tecnologias. Neste caso, surgem dois desdobramentos essenciais: retomar as ações e programas governamentais e empresariais de inclusão digital e potencializar, no âmbito das políticas educacionais, as capacitações e as práticas de reuso tecnológico.


Por fim, uma quinta e sexta estratégias caminham separadas, mas com um grau elevado de dependência. A primeira, de ordem mais técnica, aponta para a necessidade de efetivar e garantir a interoperabilidade entre os sistemas com a adoção de padrões e dados abertos e a segunda, de ordem jurídica, para fomentar e adotar os modelos de propriedade intelectual livre, comum ou coletiva.


Se por um lado a tecnologia evolui em seu campo direto de aplicação, a parte das relações sociais de produção não acompanha a mesma velocidade. O princípio da colaboração é um desafio a ser perseguido sempre. Nesta questão, ainda temos bastante para avançar, pois no mundo da Tecnologia da Informação (TI), embora a conexão seja feita cada vez mais pelas máquinas – comunicação mediada por computadores –, temos na ponta as pessoas vivenciando essas relações sociais de trabalho. Significa dizer que as estratégias para darmos um salto expressivo deverão ser mais contundentes e eficazes.


No avanço desse convívio entre o homem e a máquina, um novo componente se torna cada vez mais presente: o chamado capital tecnológico-informacional [2]. Uma parte das mudanças do século XXI tem sua origem na tecnologia autônoma e não na própria intervenção humana direta. Embora seja assustador, cada vez mais as máquinas impulsionadas por sistemas têm vida própria e essa autonomia precisa ser compreendida e controlada pelo ser humano. A primeira estratégia precisa estruturar um programa nacional para desenvolver o capital tecnológico-informacional em todas as regiões do país.


No cenário acima, fica evidente a necessidade do investimento contínuo e exclusivo na formação das pessoas, com objetivo de criar a cultura da colaboração (as comunidades virtuais de produção já detectaram esse problema faz tempo). Por outro lado, como colocado nos aspectos técnicos, ainda existem muitos recursos a usufruir e compartilhar, ou seja, temos dois caminhos na capacitação: primeiro aprender e empreender com o modelo de organização em rede, e o segundo, aproveitar mais os resultados da produção colaborativa existente – não adianta a tecnologia ofertar os acervos se não sabemos como encontrá-los e utilizá-los. Daqui surge a segunda estratégia que é a de incluir, desde a educação básica, teorias, conceitos e práticas de atuação em rede e de produção colaborativa.


A busca da organização em rede surgiu como forma alternativa às organizações tradicionais hierarquizadas e influenciou a formação da estrutura das cooperativas e dos movimentos sociais. Com a chegada da Internet, pela primeira vez aparecem diferenças contundentes com relação ao modelo de produção. Uma delas é a capacidade dos agentes produtivos colaborarem autonomamente na produção. Isto significa que novas características do modelo de produção são incorporados em toda cadeia produtiva, dada a diversidade dos atores envolvidos. Desta forma, encontramos uma terceira estratégia: fomentar modelos de negócio e de investimento em organizações que estejam interessadas em trabalhar no mecanismo de produção colaborativa.


A questão mais importante da produção colaborativa em rede é garantir o “elo forte” existente na cadeia de produção industrial tradicional. Neste ambiente, todo esforço para geração de um produto ou serviço segue a lógica de “elos fortes”, que garantem o funcionamento concatenado da linha de produção, algo que se torna menos corriqueiro para o ambiente em rede. Entretanto, diversos mecanismos desenvolvidos por sistemas de informação podem cumprir a missão de tornar fortes os elos na “linha de produção” virtual. Desta forma, torna-se necessário que sejam criadas políticas de investimento para incentivar o uso de sistemas e ambientes de produção colaborativa.


Existe uma capacidade colaborativa nas redes virtuais que revoluciona as relações sociais e o modelo de produção de bens e serviços. Isto gera um conjunto de possibilidades em que todos os setores da economia precisam se envolver de alguma forma, em especial para desenhar uma política pública. É óbvio que enxergar a produção colaborativa como uma política pública não é trivial, mas três estratégias podem ser estruradas para iniciar o processo: (i) Fortalecer a gestão dos ativos intangíveis públicos de maneira exclusiva, (ii) Aumentar a quantidade de projetos colaborativos financiados com recursos públicos, e (iii) Criar um modelo de contratação de serviços pelo governo, cujo resultado do produto ou serviço seja devolvido para sociedade.


O envolvimento do setor público é essencial para que o modelo econômico de negócios seja sustentável e confiável. A dimensão do público favorece e legitima a infraestrutura de produção colaborativa. Os primeiros elementos de uma nova economia dependem da criação de uma base comum de produção [3], onde ferramentas, informações, dados e conhecimento sejam ofertados sem barreiras de entrada e de maneira universal a todos os envolvidos na cadeia de produção, inclusive aos usuários.


A organização em rede é mais antiga do que a popularidade que o conceito alcançou com a informática e a Internet. Significa dizer que organizações sociais estruturadas em modelo de rede constituíram modelos particulares de organização. São características das redes: a descentralização, a horizontalização, a desconcentração, a autonomia e a inter-relação. Embora sejam conceitos antigos eles ainda não são vivenciados em plenitude nas organizações. Inegavelmente, a tecnologia disponível hoje atende aos princípios expostos acima, já as pessoas nem tanto.


A capacitação das pessoas deve prever uma relação direta com a questão da propriedade intelectual que foi mencionada anteriormente nos aspectos tecnológicos. Ao mesmo tempo que o modelo de propriedade permite a proliferação de tecnologias e formatos abertos ele também é a essência do compartilhamento. Qualquer país que queira levar a sério um novo modelo de desenvolvimento terá que adotar medidas efetivas para que se prolifere a propriedade intelectual livre, comum e coletiva. Essa nova dimensão da propriedade é o núcleo de sustentação da produção colaborativa e compartilhada.


Para saírmos das boas intenções de posicionarmos o Brasil como um dos países pioneiros dessa Nova Era, precisamos acelerar a retirada dos gargalos tecnológicos de infraestrutura e de exclusão e pensar que a produção colaborativa pode fazer parte das Políticas de Ciência e Tecnologia, Industrial e Educacional. Entretanto, seja qual for o caminho a ser seguido, as ações devem ser direcionadas para duas prioridades: (i) na dimensão mercado, para a criação e sustentação de novos modelos de negócios que atendam aos princípios da colaboração, e (ii) na dimensão pessoas, para que a capacitação seja tratada efetivamente como prioridade, porque a transição verdadeira para a Nova Era vai depender muito das pessoas e não somente das máquinas.


As 16 Propostas de Ações Estratégicas para o país avançar no modelo de Produção Colaborativa



  • • Acelerar a organização de um plano de ação nacional para realizar a migração dos sistemas legados para as tecnologias Web 2.0 ou superiores;

  • • Ampliar a malha de conectividade do país, com preços mais acessíveis;

  • • Manter uma pauta de ações permanente para o combate às desigualdades digitais de infraestrutura e de inovação;

  • • Criar condições estruturais para que as organizações e as pessoas façam pleno uso das tecnologias;

  • • Retomar as ações e programas governamentais e empresariais de inclusão digital;

  • • Potencializar no âmbito das políticas educacionais as capacitações e as práticas de reuso tecnológico;

  • • Efetivar e garantir a interoperabilidade entre os sistemas com a adoção de padrões e dados abertos;

  • • Fomentar e adotar os modelos de propriedade intelectual livre, comum ou coletiva;

  • • Estruturar um programa nacional para desenvolver o capital tecnológico-informacional em todas as regiões do país;

  • • Incluir, desde a educação básica, teorias, conceitos e práticas de atuação em rede e de produção colaborativa;

  • • Fomentar modelos de negócio e de investimento em organizações que estejam interessadas em trabalhar no mecanismo de produção colaborativa;

  • • Criar políticas de investimento para incentivar o uso de sistemas e ambientes de produção colaborativa;

  • • Fortalecer a gestão dos ativos intangíveis públicos de maneira exclusiva;

  • • Aumentar a quantidade de projetos colaborativos financiados com recursos públicos;

  • • Criar um modelo de contratação de serviços pelo governo, cujo resultado do produto ou serviço seja devolvido para sociedade; e

  • • Criar uma base comum de produção, onde ferramentas, informações, dados e conhecimento são ofertados sem barreiras de entrada e de maneira universal a todos os envolvidos na cadeia de produção, inclusive aos usuários.


Notas:


[1] Entrevista com economista, Jeremy Rifkin, Revista Galileu, Fevereiro de 2015, Editora Globo


http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/02/como-internet-das-coisas-vai-atropelar-o-capitalismo.html (último acesso em 29/03/2015)


[2] O conceito de capital tecnológico-informacional é desenvolvido pela professora Christiana Freitas no artigo “O Capital Tecnológico-Informacional”, Estudos de Sociologia, Araraquara, 17, 115-132, 2004. Trata-se de um tipo específico de capital que “ nasce como expressão da crescente necessidade de controle e gerenciamento de máquinas que vivem – e convivem – com grande parte dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. Tal contexto gera a necessidade de obtenção de um conhecimento específico que viabilize o trânsito pessoal por teias de relações que freqüentemente requerem tal domínio. Esse conhecimento pressupõe condições específicas de formação social, cultural e educacional dos indivíduos”.


[3] O conceito de Base Comum de Produção é encontrado no livro Wikinomics, de Don Tapscott e Anthony D. Williams, 2007, Editora Nova Fronteira. Os autores mencionam que “os mercados dinâmicos repousam sobre bases comuns de produção”.



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