Microsoft busca mudar imagem e declara amor ao código aberto

Publicado em 24/08/2010 às 12:01 | 15901 leituras

Apesar de já ter atacado o Linux, empresa assume nova postura para conquistar comunidade open source.


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Defensores do Linux lembram-se claramente do famoso comentário do CEO da Microsoft, Steve Ballmer, de que o Linux era um “câncer” que ameaçava a propriedade intelectual da Microsoft.


Ballmer ainda é o CEO da Microsoft, mas o comentário ocorreu em 2001 – tempo que, em termos de tecnologia, equivale a décadas. A empresa não voltou atrás em sua declaração de que o Linux viola suas patentes – não oficialmente -, mas pelo menos um executivo da Microsoft admite que a posição beligerante assumida no passado pela empresa foi um erro.


A Microsoft quer que o mundo entenda que, sejam quais forem suas rusgas em relação ao Linux, ela não tem mais qualquer implicância com o código aberto.


Principais marcos


Em 2010 a Microsoft empenha-se em não ser o inimigo público número um dos defensores do código aberto. Em alguns casos, ela contribui ativamente com código aberto; em outros, ela promove a integração entre os produtos da Microsoft e o software open source.


“Nós amamos open source”, disse Jean Paoli, da Microsoft, em uma entrevista recente à Network World. “Nós temos trabalhado com código aberto por um bom tempo.”


O erro de tornar todas as tecnologias de código aberto equivalentes com o Linux foi “cometido realmente muito cedo”, disse Paoli. “Isso ocorreu, de fato, há um bom tempo. Nós entendemos nosso engano.”


Paoli é o gerente geral da equipe de estratégias de interoperabilidade da Microsoft – cabe a essa equipe lidar com questões de código aberto. Veterano que trabalha há 14 anos na Microsoft, Paoli também é cocriador da especificação XML.


O mais recente trabalho de Paoli envolve uma nova iniciativa da Microsoft de promover a interoperabilidade entre os componentes fundamentais das redes de nuvens. A iniciativa, detalhada em julho na O’Reilly Open Source Convention, tenta promover a portabilidade de dados; o uso de tecnologias baseadas em padrões; a facilidade de migração e de instalação em redes de nuvens; e a oferta de opções para o desenvolvedor.


A iniciativa não é estritamente um projeto de código aberto, mas ilustra a evolução do relacionamento da Microsoft com tecnologias abertas. A Microsoft parece conduzir um esforço concentrado para agradar a parcelas da comunidade de código aberto, e a empresa poderia se beneficiar desse jogo de relações públicas em contraste com posições impopulares como as da Oracle, que encerrou o projeto OpenSolaris e processa a Google pelo uso de Java de código aberto no Android.


Ainda há críticas para a atitude da Microsoft em relação ao código aberto, e a Microsoft golpeou-se a si mesma em 2007 quando alegou que o Linux e outros softwares de código aberto violam uma impressionante lista de 235 patentes da Microsoft. E, em 2008, segundo algumas fontes, Bill Gates afirmou que as licenças de código aberto foram feitas para assegurar que “ninguém possa melhorar o software”.


A Microsoft também entrou no ano passado com um processo de patentes contra a Tom Tom, fabricante de produtos de GPS, forçando-a a pagar taxas de licenciamento, e foi capaz de forçar a HTC a pagar royalties sobre o uso do Android.


Microsoft e a “TI mista”


Mas Paoli diz que a Microsoft reconhece que seus clientes usam uma mistura de tecnologias proprietárias e de código aberto.


A Microsoft liberou algumas tecnologias sob sua própria licença de código aberto (a “Microsoft Public License”), como a IronRuby, que integra código .Net com a linguagem de programação Ruby.


“Hoje, realmente, o mundo gira em torno de uma TI mista”, diz Paoli. “Hoje a realidade é que muitos clientes, se não a maioria deles com quem tenho contato, usam Oracle e Red Hat e Microsoft e IBM e VMware e Google, etc. Tudo isso aponta para o que chamamos de TI mista. Você tem, juntos, software comercial e de código aberto, em muitos, muitos casos.”


A disputa de patentes iniciada em 2007 pela Microsoft não pesa muito. Ela sugeria a definição de uma posição mais dura em questões de licenciamento e propriedade intelectual, mas depois de seu revés público a Microsoft tornou-se mais sábia sobre como abordar questões que envolvem o Linux e código aberto, diz o analista Jay Lyman, do 451 Group.


“Penso que seria difícil, se não impossível para a Microsoft, seguir adiante”, diz Lyman. “Solicitaram à empresa que citasse quais patentes foram violadas e eles nunca levaram isso muito longe.”


Com o aumento da popularidade do Linux, a Microsoft voltou-se diretamente à comunidade Linux em busca de reconciliação. Ela submeteu o código fonte de drivers para inclusão no kernel do Linux, com a intenção de oferecer “os ganchos para qualquer distribuição de Linux rodar no Windows Server 2008 e sua tecnologia de hipervisor Hyper-V”, como informou, na época, a Network World. A submissão de código tinha de ocorrer sob a mesma licença GPL, a mesma que havia sido criticada por Bill Gates.


Dois meses depois dessa decisão, a Microsoft foi criticada por Greg Kroah-Hartman, líder do projeto de driver Linux que aceitou o código da Microsoft. Kroah-Hartman informou que “os desenvolvedores da Microsoft parecem ter desaparecido, e ninguém responde aos meus e-mails”.


Mas a Microsoft apareceu e tudo parece estar bem agora.


“Do meu ponto de vista, tem sido ótimo”, disse Kroah-Hartman em à Network World, por e-mail. “O código está na principal árvore do kernel, a Microsoft continua a enviar correções, alguns novos recursos foram incluídos por outros desenvolvedores e tem havido um número de patches da comunidade para consertar alguns dos problemas mais óbvios do código”.


Apesar dos problemas iniciais, Kroah-Hartman diz agora que “não posso me lembrar de nada negativo sobre este projeto”.


Olhando para o futuro, Kroah-Hartman diz esperar “mais do mesmo. Correções continuam a ocorrer, o código torna-se mais depurado e, com o tempo, será movido da árvore de estágio para seu próprio subdiretório na porção principal do kernel. Tudo isso enquanto as pessoas usam o código diariamente.”


Ao ouvir o comentário de Paoli, de que a Microsoft ama o código aberto, Kroah-Hartman disse: “É uma bela frase, gosto dela.”


Mas, enquanto o projeto de driver Linux parece ser um sucesso, isso não significa que toda a “comunidade open source” esteja pronta para considerar a Microsoft uma amiga. O código aberto é uma concepção de desenvolvimento de tecnologia e, para alguns, uma filosofia. Por sua natureza, o código aberto não pode ser representado por uma única voz.


“Você precisa ter cuidado com o termo ‘comunidade open source’”, diz Kroah-Hartman. “É um grupo grande, que opera de forma independente e tem suas próprias visões e objetivos. Tudo que posso representar é minha própria visão como membro da equipe de kernel do Linux e como um desenvolvedor que cria diferentes distribuições de Linux. Assim, nesse ponto de vista, é bacana ver a Microsoft tornando-se parte da equipe de desenvolvimento do kernel Linux. Eles têm respondido a relatórios de bugs enviados por usuários e outros desenvolvedores e interagem bem com eles, o que caracteriza, sob meu ponto de vista, um ‘relacionamento’ muito bom.”


Relacionamento ampliado


A relação da Microsoft com o código aberto é apenas superficial, argumenta Matt Asay, principal executivo de operações (COO) da Canonical, distribuidora do Ubuntu Linux, em uma coluna para o site The Register.


“Uma grande aposta que a Microsoft deveria fazer é em código aberto; essa é a ferramenta dos despossuídos, e este é um rótulo que começa a colar na gigante de Redmond”, diz Asay.


A Microsoft “precisa ir mais fundo no Linux”, não pela troca do Windows pelo Linux mas pela “aquisição do negócio SUSE Linux da Novell e pelo foco total em mobilidade”, acrescenta Asay (embora talvez ele queira simplesmente que a Microsoft tire do mapa um de seus competidores).


“O código aberto oferece à companhia um modo de manter seus bilhões em Windows e Office ao mesmo tempo que abre caminho para seus próximos negócios de um bilhão de dólares ou mais. É uma grande aposta, mas se considerarmos as falhas com o KIN e com o Zune, será questão de tempo para a Microsoft assumir um risco muito maior em código aberto”, conclui Asay.


Se a Microsoft mergulhará mais fundo em código aberto é uma questão em aberto, mas uma voz proeminente em software diz que a guerra entre a Microsoft e o código aberto é coisa do passado, em parte porque a Microsoft não poderia destruir o código aberto - mesmo se quisesse.


“A batalha está perdida”, disse ao jornal Guardian Mitch Kapor, que fundou a Lotus Software, a Electronic Frontier Foundation, a Open Source Applications Foundation, e ajudou a criar a Mozilla Foundation.


“No nível dos detalhes, há um milhão de questões a serem trabalhadas – mas o código aberto vai matar o software? Ninguém está dizendo isso”, afirmou Kapor à época.


Ganhar com erros


A Microsoft tem uma oportunidade de melhorar sua reputação entre os defensores do código aberto em parte por causa dos erros de relações públicas da Oracle - que, como foi dito, está encerrando o projeto OpenSolaris e processa a Google pelo uso de Java.


O mais grave em relação à Oracle é que a empresa já tinha abraçado a causa Linux associando-se a organizações de código aberto, contribuindo para o código Linux e oferecendo apoio ao Linux nas empresas, diz Lyman.


No caso do processo sobre Java, a Oracle aparece publicamente atacando a comunidade de código aberto em geral, mesmo que seu alvo específico seja a Google.


Pelas suas ações, a Oracle faz a Microsoft parecer boa, diz Lyman.


“É bom, para a Microsoft, que a Oracle seja vista como inimiga do software open source”, diz. “Muitos observadores veem no comportamento da Oracle o tipo de situação que deixou a Microsoft com problemas. A Oracle provavelmente teria feito um trabalho melhor se cuidasse para que ninguém pensasse em atacar o código aberto”.


Olhando para o futuro, a Microsoft ainda terá de lutar para equilibrar as necessidades de seu negócio de licenciamento com o risco de parecer muito litigiosa. “Eu penso que a Microsoft sabe que uma ação legal errada poderia levar a uma resposta mais ampla”, diz Lyman.


A Microsoft não tem um funcionário que supervisione, de forma centralizada, todas suas iniciativas de código aberto (a menos que você leve em conta o CEO Ballmer). “A iniciativa de código aberto da Microsoft é uma responsabilidade compartilhada por várias áreas da organização, e mais de 150 pessoas dentro da companhia assumem um papel crítico de esforços de colaboração entre a comunidade de código aberto”, diz um porta-voz da Microsoft.


Mas a Microsoft tem múltiplos projetos que abraçam o código aberto e até um site dedicado, que detalha seus projetos e objetivos em código aberto.


No front da virtualização, a Microsoft tem tido embates com a VMware, produtora de software proprietário de virtualização, mas tem feito parcerias com Citrix, que vende tecnologia baseada no hipervisor Xen, de código aberto.


Paoli ressalta diversas iniciativas que ilustram o compromisso da Microsoft com código e padrões abertos. A Microsoft ajudou a criar OData, o Open Data Protocol, que usa as tecnologias da web para “liberar” dados de aplicações que, de outra forma, seriam mantidos ocultos. A Microsoft também expandiu recentemente a CodePlex Foundation para encorajar desenvolvimento de código aberto.


A equipe Windows Azure da Microsoft também tem fornecido kits de desenvolvimento de software para desenvolvedores que usam PHP e Java, não apenas para sua tecnologia proprietária .Net Framework.


No fim, o apoio da Microsoft aos princípios do código aberto vão no máximo até aqui. É altamente improvável que o Windows um dia se torne um sistema de código aberto. A Microsoft tem feito jogadas precisas que aumentam sua reputação em código aberto como resposta a demandas reais de mercado. Se a Microsoft continuasse a evitar código aberto completamente, teria perdido clientes atuais e potencialmente novas oportunidades de crescimento.


Numa época em que a Microsoft não é mais a empresa de tecnologia mais valiosa do mundo – esse título, medido pelo desempenho em bolsa de valores, é da Apple – Steve Ballmer não pode se dar ao luxo de ignorar uma força de mercado tão grande como a representada pelo código aberto.


Interoperabilidade entre muitas tecnologias, que frequentemente envolvem integração com software de código aberto, é o que os clientes estão pedindo, diz Paoli. Essas demandas apenas ficarão mais fortes por causa da proliferação da cloud computing e das preocupações com soluções fechadas que a cloud computing criou e amplificou.


“Sabemos que as organizações têm funcionado com um ambiente misto de TI”, Paoli diz. “Eles todos têm Windows e Linux e IBM. Todos eles dizem que conectividade e interoperabilidade são fundamentais, e flexibilidade para escolher o que querem usar e quando querem usar.”


Fonte: Computerworld


 


 

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