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Reflexões de um Cachorro Louco

Fim do ano, da década e de uma era

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Por Jon ‘maddog’ Hall

Em 1999, eu trabalhava no grupo de Unix da Digital Equipment Corporation como gerente de marketing técnico, ganhando um salário anual "de seis dígitos". Eu encontrara Linus Torvalds em maio de 1994 e havia reconhecido o Linux e o Software Livre como algo cuja hora tinha chegado. Apesar da maioria do mundo em 1994 pensar que Software Livre era apenas para usuários técnicos, educadores e hobbystas, eu achava que o Software Livre possuía valor comercial e ajudei a iniciar e promover a aceitação do Software Livre, em particular o Linux, no mercado comercial.

Em 1994, eu já tinha grande experiência com softwares escritos por usuários finais e distribuídos livremente. Eu os havia usado na universidade em 1969 poe meio da Sociedade de Usuários da Digital Equipment Corporation (DECUS, na sigla em inglês). Usei-os novamente ao lecionar na Faculdade Técnica Estadual de Hartford, assim como em várias outras faculdades e (por ter acesso ao código-fonte de várias formas) na maioria dos meus trabalhos. Logo antes de encontrar Linus Torvalds, eu havia trabalhado com uma equipe de pessoas do grupo de Unix da Digital para criar uma versão pré-compilada e testada dos softwares GNU (e outros) para o sistema operacional OSF/1 da Digital, que chamávamos de "Good Stuff" (coisa boa) e que distribuíamos livre e gratuitamente para todos que desejassem. Ainda tenho alguns desses CDs de "Good Stuff".

Nos anos 1995 a 1999, eu aceitei o cargo de Diretor Executivo da Linux International, um grupo de empresas pequenas e empolgadas que acreditavam no Linux e no Software Livre em geral, e "entendia" a maior parte das questões com respeito à comunidade e às pessoas que participavam dessa comunidade. A princípio, a chefia na Digital questionou o que eu estava fazendo, mas como eu vendia processadores Alpha tanto com o Digital Unix quanto com o Linux, eles me deixaram promover as virtudes do Software Livre. Alguns dos meus chefes riram de mim por acreditar no Linux. Boa parte desses chefes agora trabalham na Red Hat.

Ao longo do tempo, era possível ver que a minha mensagem de Linux e Software Livre estava começando a incomodar os chefes na Digital, pois um dos maiores "parceiros" da empresa era a Microsoft, então em 1999 eu tive a oportunidade de me dedicar ao Linux em tempo integral e aceitei, deixando para trás a Digital e meu salário anual de seis dígitos.

De várias formas, os dez anos desde 1999 foram alguns dos melhores de toda a minha vida. Encontrei e conversei com muitas pessoas incríveis e apaixonadas. Embora eu tivesse viajado a vários países como parte do grupo de Unix da Digital (tanto como instrutor quanto como pessoa do marketing), eu costumava falar somente com gerentes e grandes grupos de pessoas em conferências e convenções.

O Software Livre me trouxe a oportunidade de conversar mais com desenvolvedores, alunos, pesquisadores e (muito interessante) chefes de governo que eu jamais teria alcançado de outra forma. Como eu estava falando de um processo de criação de software e não de um produto comercial especíico, as pessoas me escutavam e entendiam que o Software Livre trazia a oportunidade de criar empregos e tomar o controle de seu destino de software.

Já fiz milhares de apresentações nos últimos dez anos, viajei a mais de 100 países (a maioria mais de uma vez) e conversei com todas as pessoas, desde alunos do ensino fundamental até grupos de idosos.

Já dei várias palestras diferentes. Embora tenha reutilizado meu material de uma apresentação para outra, eu preparei cada um deles para seu público, frequentemente escrevendo os slides até o momento da própria apresentação (e às vezes enquanto eu apresentava). Escutei pacientemente todos os "motivos" pelos quais as pessoas achavam que não podiam usar Software Livre, até eu escrever a palestra "Os dez motivos pelos quais você pensa que não pode usar Software Livre, e os dez motivos pelos quais eles não valem nada".

Meu método de "avaliar" convites para apresentar palestras era simples: as primeiras a chegar eram as primeiras a ter minha resposta. Recebi e aceitei convites de grupos tão diversos quanto as Nações Unidas e um grupo de usuários de Fiji. Se eu tivesse tempo na agenda, eu concordava em palestrar.

Nessas conferências, eu ficava extremamente feliz quando as pessoas chegavam para contar algo como "eu comecei minha própria empresa suportando Software Livre, e preciso agradecer a você", ou "eu escutei você e hoje estou milionário por causa do Software Livre". Sim, isso realmente aconteceu... EU gostaria de ter pedido ao segundo senhor uma parte desse dinheiro...

No começo da minha carreira em Software Livre, eu decidi não cobrar pelas minhas palestras, pois eu estava ganhando a vida com Software Livre e as palestras eram a minha forma de "retribuir" à comunidade. Algumas empresas tiraram muita vantagem disso, pois cobravam grandes quantias para as pessoas participarem da conferência e me conseguiam como "palestrante barato", mas ainda assim eu estava passando a mensagem do Software Livre e acreditava que alcançar algumas dessas pessoas seria bom para "a causa". Entretanto, apesar de os grupos que convidavam costumavam pagar minhas passagens e viagens, isso não compensava de forma alguma os meus outros gastos, como comida, carros e hipoteca. Essas despesas eram pagas pelas minhas consultorias e meus textos.

Infelizmente, apesar de o milagre da Internet e dos laptops com Software Livre ter permitido a mim trabalhar um pouco durante as viagens, a quantidade de trabalho que eu conseguia fazer e a concentração que eu conseguia ter eram menores do que no meu escritório. Conforme o Software Livre foi tornando-se mais e mais popular, a quantidade de viagens aumentou de 30% para 90% do meu tempo, o que significava que eu teria que fazer menos “trabalho real”... E minha renda diminuiu. Além disso, enquanto mais pessoas entendiam o Software Livre, a quantidade de consultorias começou a diminuir.

Nem vamos discutir o pesadelo que o transporte aéreo se tornou, e que na doce idade de 59 anos, sentar-se num assento de avião durante dez horas não é divertido.

Nos últimos cinco anos, estou mais envolvido com o que começou a se tornar um problema para a sociedade de forma geral. O consumo de energia, questões ambientais de reciclagem de computadores (tenho aproximadamente meio milhão de dólares em computadores velhos que me custariam 200 dólares para ser retirados) e questões de facilidade de uso. Minhas palestras começaram a falar do uso de Software Livre para estender a vida de computadores e da computação, e tornar os computadores mais fáceis de usar por meio de sua adaptação a nossas necessidades, além de ganhar diinheiro com Software Livre. Por último, a crise econômica de 2009 coroou um plano de criar empregos muito necessários, e daí surgiu o “Projeto Cauã”. Infelizmente, no último ano, tive pouco tempo disponível para o projeto devido a todas as viagens que tinha que fazer.

Então, decidi diminuir minhas viagens e me concentrar mais nos meus textos e me dedicar ao projeto. Vou pegar algumas palestras que fiz no passado e formatá-las para que outros possam apresentá-las aos gerentes e consumidores que desejarem convencer dos benefícios do Software Livre. Em vez de 50 ou 100 pessoas, milhares irão ouvir os argumentos... Só que não de mim.

Planejo escrever mais no blog, pois, assim, aqueles que gostam do que escrevo terão mais coisas para ler. Na verdade, meu blog abordará mais o lado técnico, além do lado comercial; e espero que isso facilite nossa comunicação, porque pedirei opiniões sobre o Projeto Cauã e outras questões.

Planejo diminuir o número das minhas viagens, mas elas não acabarão por completo. Tenho ótimos convites para 2010, incluindo um em Gana, e algumas conferências às quais comparecerei porque “velhos amigos” (vocês sabem quem são) me convidaram. Algumas delas serão obrigatórias, e para lá irei. Porém, não tenha medo de me convidar para sua palestra, apenas entenda que eu poderei responder “este ano, não”.

Por fim, gostaria de inaugurar uma escola com um curso superior um dia. Venho falando nisso há anos, e alguns acham que é só uma piada, mas outros sabem que tenho um plano verdadeiro para esta escola. Ela se chamará “monastério e marina maddog para matemática, música, micro-computação, micro-cervejaria, micro-vinícola, micro-destilaria e loja de iscas” e, depois que ouvem o que tenho a dizer sobre o “monastério”, muitos respondem: “Inclua-me nos seus planos, por favor”. Preciso começar a trabalhar neste projeto também, mas deixemos essa conversa para outro post.

E, enquanto ouço os fogos de artifício da virada do ano, desejo a todos um maravilhoso 2010.

Carpe Diem.

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