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Notícia

Microsoft Brasil abre o jogo: entrevista com Roberto Prado

Publicado em 28/02/2008 às 15:53

Esta notícia foi visualizada 275 vezes.

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Os recentes anúncios da Microsoft [1] [2] [3] [4] tiveram forte repercussão sobre a comunidade do Software Livre e de Código Aberto. A Linux Magazine entrevistou Roberto Prado, gerente de estratégias da Microsoft Brasil, para que o executivo explicasse as motivações, o histórico e o significado de toda a agitação em Redmond.

Linux Magazine» Após o anúncio da Microsoft, informando que abriria a documentação de suas APIs e formatos binários de seus produtos de maior circulação, muitas pessoas – inclusive na imprensa – permaneceram em dúvida quanto ao teor e conteúdo dessa abertura. O que exatamente foi aberto? E qual a estratégia da Microsoft por trás disso?

Roberto Prado, Microsoft Brasil

Roberto Prado» Quem vem acompanhando nosso trabalho vê que falamos de interoperabilidade há três anos, sempre reforçando a idéia de que se trata de um aprendizado. Como tal, à medida em que colhemos experiência, aprendemos e desenvolvemos, nós entendemos como vamos operacionalizar isso para o mercado de uma maneira geral. Isso tudo é um resultado direto da área de liderança do Bill Hilf, que viabilizou conquistas como o laboratório conjunto com a Novell e as parcerias com Turbolinux, Linspire e Xandros. Tudo isso ajudou a construir a visão.

Junto a isso, nós já tínhamos a comunicação pró-ativa de que nosso produto é interoperável by design, ou seja, desde o projeto. Nosso produto já engloba grande número de protocolos abertos (mais de 100 só no Windows Server). Por exemplo, falar que o Windows Server pode “conversar” com mainframes é uma coisa do passado, porque hoje isso já é óbvio e natural.

Então, acho que o passo que demos com o anúncio recente é muito relevante. Em relação aos comentários negativos de muitas pessoas da comunidade do Software Livre, nós agora entendemos que muitas soluções comerciais tendem à abertura, enquanto muitas soluções abertas tendem ao comercial. Ou seja, é uma convergência dos modelos, que acho que é o que está acontecendo.

O que foi aberto foram as informações sobre algumas de nossas APIs. Por exemplo, quando eu era desenvolvedor, usei muito a Win32API, que fornecia diversas funções. Porém, ela tinha limitações. A documentação liberada agora vai mais a fundo e é aberta a todo o ecossistema – desenvolvedores, usuários, estudantes, parceiros de negócios e qualquer outra pessoa ou organização – sem qualquer custo de royalties.

Os próximos passos são a comunicação pró-ativa, educação dos parceiros da MS e desenvolvedores, localização de conteúdos e, finalmente, incentivar os parceiros – empresas – que desenvolvem software para nós a trabalharem com essas APIs, protocolos e padrões para que possamos ter aplicações disponíveis para o mercado. Antecipando esse movimento, já vínhamos realizando exatamente essas ações em nossas parcerias com universidades como Unicamp, UFRGS e Unesp. A diferença é que, nesse caso, não tenho usado APIs no nível que está sendo oferecido agora. Então, as oportunidades e possibilidades nesses laboratórios agora são ainda maiores.

Por exemplo, o assinador digital foi publicado no Codeplex, e já tenho clientes que o utilizam para assinar documentos digitais mesmo sem usarem o MS Office. Já ouvi pessoas afirmando que isso seria “um tiro no pé” para nós, mas não acredito nessa possibilidade. Esses meus clientes não ficam insatisfeitos com a Microsoft por ela ter fornecido um código aberto para ele fazer a assinatura digital de um documento – lembrando que não o assinador não trata apenas de documentos do MS Office.

LM» Mas ainda há muitas pessoas descrentes quanto à abertura dessas informações por parte da Microsoft. Existe alguma estratégia para combater esse ceticismo?

RP» Para qualquer ação nossa, sempre há pessoas que adoram, outras que odeiam e algumas que são neutras. A reação não é única, nem as estratégias de comunicação. Para algumas pessoas, basta uma comunicação para convencê-las de nossos objetivos; já para os mais céticos, somente com o tempo e a observação de tudo que viermos a entregar ao mercado eles poderão ser sensibilizados.

Isso é muito semelhante ao que temos visto em relação a eventos no Brasil. No passado, íamos aos eventos convidados para falar sobre “Microsoft versus Linux”, e hoje o assunto costuma ser “Microsoft e interoperabilidade”. Mudou a forma como somos convidados, mudaram os fóruns (o Linux Park é um exemplo). Ou seja, com o tempo e nosso esforço de execução, pretendemos alcançar uma melhor avaliação do anúncio recente.

LM» A Microsoft demorou para perceber o valor da Internet, o que pode ter causado a perda de grandes oportunidades, tanto que hoje ela não detém uma grande fatia do mercado de serviços online – muito atrás do Google. Você acha que pode ter acontecido a mesma demora em relação à percepção do valor do Código Aberto pela empresa?

RP» Acho que é importante voltarmos um pouco no tempo para entender a estratégia da Microsoft em relação ao posicionamento de produtos, à maturidade do mercado etc. Quando foi lançado o Windows NT, havia um mercado já consolidado de servidores de rede, cujo líder era a Novell. Quando lançamos o Exchange, também já havia um mercado consolidado de correio eletrônico, com o Lotus Notes. Hoje o Exchange tem presença maior que o Lotus Notes, e temos mais servidores Windows Server do que Novell. Historicamente, nossa estratégia é trabalhar com produtos em mercados maduros, com grande volume e baixos preços.

“Nada mais natural do que a Microsoft e também o Código Aberto procurarem um caminho de interoperabilidade.”

Então, quando você diz que a Microsoft “demorou para perceber o valor da Internet”, talvez simplesmente o mercado ainda não estivesse suficientemente maduro para sustentar os negócios da Microsoft. A empresa talvez ainda não soubesse como explorar esse mercado e esses produtos. Naquela época, outras empresas souberam aproveitar as oportunidades então oferecidas pelo mercado, como as responsáveis por buscadores (Altavista, Cadê, AOL, Yahoo). A atual liderança do Google não é conseqüência de nossa suposta demora no meio da década de 90, e sim da visão de modelo de negócios que eles criaram sobre seu eficaz mecanismo de busca. Quando o Google se transformou num gigante, a bolha da Internet já tinha estourado, o mercado estava mais maduro, o que era vapor já havia sido eliminado e o terreno estava muito sólido. O Google foi muito oportuno e conseguiu aproveitar esse momento.

Em relação ao Código Aberto, vamos também voltar no tempo. A história do Código Aberto começa em 1950, bem antes da Microsoft existir, quando os usuários desenvolviam programas e enviavam-nos para o fabricante do computador. O software comercial só surgiu na década de 1970, com o litígio entre IBM e o governo americano, que obrigou a separação entre hardware e software. O Software Livre, conforme a definição do Richard Stallman, é de 1984, ou seja, tem 24 anos. Então, não acredito que tenhamos demorado demais para perceber o valor do Software Livre – foi a sua maturidade que levou mais tempo para ser alcançada. Hoje, o Código Aberto só tem essa maturidade porque recebeu enormes investimentos, e não porque a comunidade resolveu participar mais ativamente, o Governo Federal decidiu dar apoio etc. Repito, a maturidade do Código Aberto só foi alcançada porque foram feitos grandes volumes de investimento.

Atualmente, vemos que o mercado de TI cresceu muito como um todo: embora a presença do Unix tenha diminuído, a do Linux cresceu, a da Microsoft cresceu e a dos mainframes manteve-se aproximadamente estável. Mas nossa base instalada ainda é muito grande. Então, nada mais natural do que a Microsoft e também o Código Aberto procurarem um caminho de interoperabilidade, em que consigam ambos fazer negócios, obter progresso e benefícios, ganhar clientes, atender clientes e parceiros etc.

Nosso modelo é baseado em parceiros, os quais desenvolvem softwares sobre a nossa plataforma. Ao abrirmos ainda mais as APIs dos nossos produtos para esses parceiros, teremos aplicações fantásticas disponíveis para Windows e, possivelmente, também para outros sistemas operacionais. Por exemplo, o Windows Server 2008 terá uma opção de instalação para que seja instalado somente o núcleo do sistema. Isso não surgiu como uma cópia do que as distribuições Linux oferecem, mas a partir da percepção de que isso diminui as áreas de vulnerabilidade e aumenta a velocidade do servidor.

Concluindo, a história mostra que a Microsoft entra somente em mercados maduros. Não sei se antes a Microsoft não estava preparada para fazer isso, ou se havia condições técnicas para isso. Nós tivemos que construir esse avanço.

LM» Em relação à proposta de compra do Yahoo pela Microsoft, o Yahoo utiliza Código Aberto em toda a sua estrutura de TI. Qual seria a estratégia da Microsoft para harmonizar as bases de dados caso a aquisição se confirmasse?

RP» O Yahoo não seria a primeira empresa que adquirimos que faz uso intenso de Linux e Código Aberto como parte da infraestrutura. O Hotmail, por exemplo, tinha toda a sua base em Linux, quando foi adquirido pela MS. O que ocorre, nesses casos, e não seria diferente no Yahoo, é uma migração lenta e bem planejada. A migração para nossos sistemas certamente não seria realizada no dia seguinte à aquisição. Por cima disso, os gestores da infraestrutura iniciariam o trabalho de otimização do uso dos datacenters das duas empresas, cuidando de aspectos como virtualização e interoperabilidade. O que com certeza não veríamos seria uma ruptura.

LM» Na sua opinião, qual é o valor da Yahoo para a Microsoft?

RP» Um dos grandes valores são os engenheiros do Yahoo. A estrutura deles é muito boa, e certamente os engenheiros por trás disso são altamente valiosos. Traríamos esses talentos para trabalhar em nossa equipe de produtos. Essas são as pessoas que mais desejaríamos em nossos quadros.

O outro grande valor seria a base de dados do Yahoo. Nossa base de dados de usuários do Live seria integrada à do Yahoo, permitindo, acima de tudo, a otimização dos recursos das duas empresas.

LM» Como dona do Yahoo, a Microsoft herdaria sua grande base Linux instalada. Se continuasse com a estratégia de ameaças relacionadas a patentes de software contra projetos de Código Aberto, a empresa poderia acabar prejudicando a si mesma. Como vocês agiriam, nesse caso?

RP» Nossa estratégia não é processar, mas fazer acordos. Foi o que fizemos com Novell, Turbolinux, Linspire e Xandros. Tenho certeza de que, caso passemos a ter em nossa infraestrutura de negócios um conjunto de servidores Linux, temos pessoas capacitadas a avaliar o que exatamente as distribuições dessas máquinas contêm, se há questões de propriedade intelectual envolvidas e encaminhar isso da melhor forma possível, talvez através de acordos de troca de licenças.

Já firmamos acordos assim (de troca de licenças, ou cross-licensing) com outras empresas que não vendem Código Aberto, como LG, Samsung, Canon. Assim como há empresas que utilizam propriedade intelectual da Microsoft, nós também usamos a de terceiros. Com esse acordo, nós passaríamos a fornecer ainda mais, e gratuitamente. Então, não creio que seria uma dificuldade a Microsoft entender qual é a distribuição usada pela empresa com a qual fez acordo e tratar adequadamente o tema da propriedade intelectual.

A propriedade intelectual, para nós, é relevante porque é um ativo. Nossos investimentos em pesquisa e desenvolvimento geram produtos que vão para o mercado. Se não acreditássemos na importância da propriedade intelectual, cessaríamos nossos investimentos em pesquisa, aguardando que nossos concorrentes desenvolvessem algo. Aliás, não apenas o investimento na própria empresa, como também nos vários parceiros a quem remuneramos para que possamos usar suas tecnologias.

LM» Que mensagem você gostaria de passar para nossos leitores?

RP» Eu gostaria de pedir que os leitores continuem encarando a Microsoft como um participante ativo do mundo do software, seja aberto ou proprietário, e que gera oportunidades. Não somos o “vilão da história”, porque a empresa nasceu em 1975, tem 30 anos, e acreditamos que o mercado está em constante evolução. Os usuários sempre tiveram a possibilidade de escolher seu sistema – lembrem-se de que o OS/2 ainda era comercializado até há pouco tempo. O Código Aberto tem mais de 20 anos de idade, já passou e ainda passa por uma série de ajustes. Hoje, a Microsoft deu um passo importante, e entende o Código Aberto. Mas nosso modelo não é compatível com o sentido de Software Livre conforme proposto por Richard Stallman.

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Comentários

Em 28/02/2008 às 17:12, jessea escreveu:

Jessé A.

Até gostei da entrevista. Quero muito que a microsoft abra documnetação, especificações, APIs e tudo que for possível. Quem sabe um dia eles abrem o código de alguma parte do windows pra gente brincar?

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